quarta-feira, 29 de abril de 2015

conexão

s.f. - coisa da alma que encontra o encaixe para suas dúvidas, medos, ansiedades e alegrias. Independe do palavrório bonito, do discurso ensaiado ou de datas especiais. Vive sem isso, sem aquilo, sem salamaleques, mas nunca sem o outro. Liga, flui, felicita, realiza, canaliza, une duas vias que procuram o mesmo caminho. A conexão não tem de ser forçada, ou espana. Não pode ser de malfeita, ou deixa vazamento.

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

terça-feira, 28 de abril de 2015

calendários





Ela estava deitada olhando a lua, quando ouviu :

- Não consigo mais imaginar a minha vida sem você.

A declaração a pegou de surpresa. Eles tinham dias divertidos e noites intensas, mas ela não imaginava que tudo estava caminhando assim tão rápido. Lembrou do dia em que se conheceram, do arrepio, da conversa fácil e despretensiosa, dos muitos pontos em comum, das infinitas diferenças. Das coincidências incríveis, das distâncias abissais entre os mundos. E de como tudo aquilo era interessante, intenso, leve. Os dois sabiam que se queriam desde o minuto em que se olharam. Não fizeram promessas, não tatuaram seus nomes, não furaram o dedo pra fazer pacto de sangue, não fizeram aliança de anel de refrigerante. Conversaram no dia seguinte sem esperar de quem seria o primeiro passo, essas formalidades eram pequenas demais para eles. Apenas se queriam bem, se queriam perto. Por que ele tinha de falar isso agora? Fazia tão pouco tempo que estavam juntos.
Lembrou da primeira viagem, do primeiro de muitos carnavais longe do carnaval, do primeiro inverno, do primeiro filme juntos, do segundo, dos infinitos filmes nos finais de semana, trancados em casa e felizes, com o mundo todo lá fora. Por que tão rápido? Lembrou do primeiro casamento, dos acessos de riso no meio das festas de família, dos olhares cúmplices que os salvavam nas reuniões chatas. Do primeiro choro, do primeiro batizado. Lembrou dos sorrisos que trocavam quando se viam pela milésima primeira vez todas as manhãs.
Levantou da cama.
- Vamos, estão nos esperando, precisamos nos apressar! Não podemos chegar tarde. Nossos filhos organizaram essa festa com muito carinho, tem um monte de convidados lá fora. Aliás, esqueci de dizer...eu fiz um pedido a eles.
- Qual?
- Que chamassem nossa festa de Bodas de Amor. Você sabe....a felicidade se assusta com essa coisa de calendários...
Ele sorriu. Sabia bem como ela desejava que o tempo fosse breve para sempre. E que ela também não imaginava mais a vida sem ele.





Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

Arte: Emma Biachini

com vida

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Vivemos sem vida quando decidimos que é mais seguro acionar o piloto automático e deixar a vida guiar nossas escolhas. Quando desistimos de fazer escolhas, imaginando que é a rotina é mais importante do que pequenas mudanças no nosso cotidiano. Vivemos sem vida quando fazemos o mesmo de sempre apenas porque é mais prático, mais rápido ou mais conveniente. Quando nos esquecemos de olhar as miudezas e ficamos esperando o grande dia chegar para começarmos a viver. Vivemos sem vida quando colocamos nossos sonhos no passo adiante, no ponto mais distante ou na meta angustiante. Quando tudo nos parece pouco, sem-graça ou aviltante. Vivemos sem vida quando nada basta, quando tudo já basta e quando temos medo de dar os bastas que nos fariam mais felizes. Quando o medo de recomeçar é maior do que a coragem de pensarmos o que queremos da vida. Vivemos sem vida quando respiramos afoitos demais, comemos rápido demais, nos cobramos exatidão demais. Quando todo mundo à nossa volta é um poço de defeitos e nós somos a ilha de perfeição. Vivemos sem vida quando nos achamos tão, mas tão evoluídos, que não precisamos melhorar em nada, tão, mas tão especiais, que ninguém nos serve, tão, mas tão sabichões, que não temos mais nada a aprender. Vive sem vida quem se anestesia, quem se ausenta de buscar alegria, quem quer viver só de euforia. Que a gente viva com vida, viva com tristezas e alegrias, convide a vida a ser nossa amiga.



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

devaneios

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O que é o amor, o que é carinho, consideração ou amizade. Devaneios mirabolantes para tentar descobrir onde cada um deles mora. Se é no coração, na alma, no estômago, no arrepio do pescoço. Na celebração dos acertos, na aceitação dos erros, no perdão dos pecados, no sorriso cúmplice. No jantar elaborado, no almoço apressado, no café compartilhado ou no saquinho de balas do cinema. Nas semelhanças, nas diferenças, no imponderável, no reconhecível. Se, como, onde, por que. Demora até perceber que só vai descobrir mesmo quando sentir. E quando sente, não tem explicação que sobreviva.

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 27 de abril de 2015

falta




Triste a falta calma, quase resignada, resina ressecada impregnada na pele. A enlouquecida, de rasgar o peito, as entranhas e o coração, dói, machuca, cicatriza e passa. Ela não. É como o corpo sem febre que não percebe que está doente. O corpo castigado que não sabe por onde começar a se curar. O corpo que não encontra repouso, acalento, descanso. Não dói. Mas se fere em falta, a calma triste

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

quero


Não quero mais do que ouvir o que seu coração tem pra me contar. Conte como foi seu dia, sua vida, o que vai aí dentro. Vem, quero te olhar com calma. Vem sem medo. Quero te ver em paz. Quero nossa liberdade. Quero sem mais o quê, sem razão. Quero a conversa no meio da tarde olhando para o nada. Quero o silêncio cúmplice de quem está em paz. Quero a paz de quem está feliz. Não quero explicação, não. Coração sem razão, de sol e luz e sombra e querer. Coração em compasso de sim e não e calor e vontade. Calma, coração, o descanso também é bom. Nos braços de quem a gente ama, o descanso também é bom.

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

domingo, 26 de abril de 2015

nunca




Não sou boa nessa coisa de nunca mais. Entristeço quando penso que as pessoas vão chegar, passar pela minha vida e seguir adiante sem mais. Prefiro a inocência de achar que todos ficarão para sempre, mesmo sabendo que não. Me alegro pensando que todos os sorrisos, olhares e alegrias estarão de algum jeito sempre vivos aqui dentro. Prefiro a felicidade de pensar que cada um passa pela nossa vida e deixa um pouco, nos enriquece, nos fortalece, nos alimenta. O que aprendemos aqui na conversa despretensiosa, o abraço que nos acolhe ali na hora esquisita, a palavra que nos entende acolá quando tudo se complica, tudo nos revive e nos renasce ao longos dos dias vida afora.Se quiser me ver feliz, não me diga nunca mais. Ainda que vá embora amanhã cedo, por favor, não me diga nunca mais.



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 20 de abril de 2015

sei não

Magritte - The Lovers II


Você não existe. Não faço ideia de quem seja, mas tenho certeza de quem é. Não sei o que  pensa, o que cria, o que sua cabeça fantasia antes de dormir, o que você deseja do fundo do coração. Mas sei tudo isso. Sei do olhar sincero, do sorriso lindo, da vontade de vida. Sei da coragem, do peito aberto, da ousadia. Sei do que sinto. Sei do que me alegra, da felicidade de ver, do calor que me dá. Sei de contar as horas, os dias, os minutos. E de esquecer de tudo isso de repente. Sei da vontade. Na verdade, desde há pouco, sei de mais nada, não. Ainda bem, sei mais de nada, não.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

sábado, 18 de abril de 2015

dentro



Dentro de mim você pode ser herói, vencedor, perdedor, ou só alguém que sorri bonito. Na minha cabeça, você pode existir, nascer, morrer, renascer, eternizar. No meu coração você pode ser eu, pode ser todos, pode ser ninguém. Posso te imaginar de mil maneiras tortas, lindas, tristes, belas ou nada. Posso te ver em histórias com começo, meio e fim. Ou em sonhos coloridos e cheirosos de noites calmas. Posso te imaginar na minha vida pra sempre. Posso te recriar em partes díspares, como um delírio feliz. Posso te deduzir como o sorriso da manhã. Posso tudo quando te olho. Você já existe em mim e nem sabe. Talvez nem eu, amor, nem eu.



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

avessos

Nas horas mais inesperadas, o cheiro do bolo, do perfume, da dama da noite ou da praia. A música, o silêncio, a palavra. A lágrima que segurou por orgulho, proteção ou porque não foi capaz de deixar rolar solta pelo seu caminho de dor e alívio. A lágrima que molhou seu rosto por horas, dias, meses ou anos, até secar por pura força da vida. O sorriso que não conseguiu retribuir. A gargalhada gostosa que fez a barriga doer e os olhos ficarem molhados de tanta alegria. O beijo que fez esquecer da hora, da vida, do mundo lá fora, mesmo no meio da rua, do cinema ou da praia. E o beijo que ficou no quase, no sem gosto, sem vontade e sem repetido. O trabalho que estressou, tirou do sério e deixou um trapo. O trabalho que realizou, deixou orgulhoso ou trouxe o dinheiro extra bem vindo. Cada carta, e-mail ou mensagem que escreveu, editou, corrigiu e não mandou. Cada olá bobo no meio da tarde que fez alguém feliz. Cada carta, e-mail ou mensagem que recebeu e sorriu. O olá bobo que preferiu não retribuir porque ainda não tinha espaço para ninguém. Cada coração que você fez feliz, cada coração que te fez feliz, cada coração que se machucou por sua causa, cada coração que machucou o seu. Cada pra sempre que acabou. Cada talvez que ficou demorado. Cada não que virou sim. Cada sim que virou nada. Cada acerto que virou dúvida. Cada dúvida que virou fumaça. Cada pulo que virou salto. Cada passo que virou estrada. Cada amor que virou história. Cada amigo que virou amor. Cada música que virou nossa. Cada nosso que virou de ninguém. Somos os pedacinhos de memória costurados ao longo do tempo, das esperas, dos titubeios e das dúvidas. Somos os pedacinhos de presente que costuramos com gentileza, carinho, dedicação e esforço. Dizem que a boa costura se conhece pelo avesso, então vamos cuidar de fazer o nosso melhor possível, todos os dias. Porque melhor do que parecer ou pretender ser perfeito, é ter a consciência de que cada ponto foi costurado do jeito mais honesto e bem-intencionado possível. É o mínimo de nós que podemos oferecer ao mundo.





Amor e verdade sempre! Telma De Luca

segunda-feira, 13 de abril de 2015

eterno?

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"Amor de verdade não acaba". "Se é amor mesmo, não acaba." "Amor de verdade é eterno". Quantas vezes já ouvimos isso? Quantas vezes nos sentimos esquisitos por pensar que tudo o que vivemos até hoje era "sentimento que não eram amor, afinal"?
Humildemente, eu corrigiria essa frase para "amor incondicional não acaba". Esse, eu acredito que não acabe nunca mesmo. Porque ele não depende de nada, nem mesmo do amor do outro por nós. Mas essas máximas geralmente são usadas para falar sobre relacionamentos,casamentos, namoros. E aí eu acho que a coisa muda (e muito) de figura. Você conhece alguém, se encanta, admira, gosta da convivência, sente falta, quer dividir seus dias, futuro, planos, com aquela pessoa. Brigas acontecem, desentendimentos também. Discordâncias, divergências, tudo isso é normal e totalmente contornável.
Mas vamos dizer que lá pelas tantas você descobre algum traço de caráter com o qual você absolutamente não concorda e sobre o qual não fazia nem ideia. Você pode passar meses, anos, sem ser ter consciência do que está acontecendo. E, sim, você ama aquela pessoa. Não, não estou falando que você descubra alguma coisa boba, algum segredinho meio idiota do passado e se sinta traído por não saber antes.Isso é contornável também. Estou falando de traço comportamental mesmo. A mentira é um deles. Muitas vezes, quando percebe,a pessoa já está imersa em mentiras e histórias mirabolantes que acreditou serem verdade. Nesse momento, a menos que seja masoquista ou coisa do gênero, o mais saudável é, sim, ir embora, se afastar. E isso não é falta de amor. Não é nada de "o amor não existia". É matar conscientemente o amor que estava dentro de você. É sair dali, parar de viver ao lado de alguém que te prejudica e te deixa infeliz diuturnamente. E quem pode dizer que "aquilo não era amor"? Não se pode matar esse sentimento dentro de si para ser saudável e buscar a felicidade de outra maneira? Infelizmente, nossa sociedade hipócrita privilegia e aplaude as relações duradouras muito mais do que as relações realmente produtivas (e por produtivas eu entendo relações que trazem crescimento e evolução para os envolvidos, em qualquer que seja a esfera).
Ah, me desculpem. Podem me chamar de fria, racional, o que for, mas não, eu não vejo mérito nenhum em se sujeitar a tudo o que o outro faz "por amor". Aceitar traição, mentiras, dissimulação. Para mim, isso é carência, medo de solidão, dependência, qualquer coisa, menos amor. O amor precisa ser alimentado, sim. Precisa ser cultivado, sim. E pode até não acabar "do nada", mas às vezes é preciso matá-lo dentro da gente para continuar vivo e ser feliz.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 6 de abril de 2015

bons olhos

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Olhar a vida com bons olhos. Não, não estou pedindo polianices e otimismo irrestrito e incontestável. Não estou esperando que os olhos sejam sempre e inevitavelmente capazes de ver tudo “pelo lado bom”. Todos temos momentos ruins, péssimos, tristes, doloridos e só depois que passam ou amenizam é que tentamos extrair o que de bom conseguimos apreender, sentir, transformar. 
Meu olhar com bons olhos é um pouco diferente. É, enfim,  alcançar a capacidade de sentir no lugar do outro. Olhar com olhos de compreensão. Tentativa, ao menos. Não, nós nunca vamos ter a dimensão exata do que se passa no coração do outro, o tamanho ou a profundidade do que lhe corta a alma, a carne e as entranhas e lhe dói. Talvez aos nossos olhos aquela dor seja pequena e simples. Talvez nem mesmo houvesse motivo para dor. Mas essa é a nossa pequena e limitada percepção do mundo. Nossa bolha, nossa mundinho ridículo, mínimo e patético como qualquer outro. Deve ser por isso que tantas e tantas vezes vemos gente vomitando na cara do outro.  Deve ser por isso que tanta gente passa dez horas por dia ao lado do outro e é incapaz de perceber um olhar triste ou desiludido ou pedindo ajuda. Deve ser por isso que tratamos nossas opiniões como verdades absolutas. Deve ser por isso que casais se julgam no direito de ofender ou humilhar o par, com a desculpa de serem "verdadeiros".
Deve ser por isso que a gente passa tanto tempo procurando alguém que nos olhe com honestidade. Vai ver é por isso que a gente se apaixona e ama quem a gente pega nos olhando com bons olhos quando a gente não está nem prestando atenção. Vai ver é por isso que o coração se entende melhor com quem brilha os olhos diante de belezas da vida, simplicidades e alegrias quase banais. Deve ser por isso que a gente agradece a presença de algumas pessoas na nossa vida. De outras, a gente quer distância. E nada mais.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

verdade

Onde é que vende essa tal verdade, meu senhor?
Tem na venda do zé,
Na barraca do João
No hortifruti
Ou no sacolão?

Cadê a verdade que vendem pronta
Nem precisa entender
Já vem mastigada
Digerida
Vomitada
Só preciso absorver?

Cadê o absoluto, seu doutor?
Igual um e um dá dois
Três mais três dá seis
Igual a raiz quadrada de 36

Cadê sua arrogância, meu amigo
Que faz do meu certo, errado
Do seu errado boa intenção
E da minha opinião, castigo?

Cadê as respostas pra tudo nessa vida
Que não tão no dicionário
Nem na enciclopédia
Nem em botar o dedo na ferida?

Cadê, seu doutor?
Disseram que era fácil
Facinho de encontrar

Ainda bem que me ensinaram
Que  pra tudo nessa vida
O melhor é trabalhar
Até pra verdade encontrar


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca