domingo, 31 de maio de 2015

vai ver




O coração está apertado, mas não estou triste. Está descompassado e não estou morrendo. Acordei me sentindo meio ridícula, meio patética, meio esquisita. Vai ver é culpa do meu péssimo hábito de ser inteira, da posição de vênus no meu mapa astral ou incompetência minha mesmo. Vai ver é coisa de geminiana que adora descobrir, ser instigada pelo subentendido e pelo insinuado, mas se entristece diante da manipulação boba. Vai ver é coisa de quem tem mania de pedir desculpas, por favor e obrigada. Vai ver é coisa de quem tem o coração meio sensível demais, meio apaixonado demais, meio doído demais às vezes. Vai ver é coisa de quem fica com os olhos tristes de repente. Ou coisa de quem ainda não aprendeu um tanto de coisa da vida. Vai ver é coisa de quem de quem abre os braços de um jeito meio particular demais. Vai ver é coisa de quem acredita em coisas maiores do que status, posição ou cargos. Vai ver é coisa de quem se encanta com sorrisos, de quem o olho brilha com a verdade, de quem ainda não aprendeu a se aceitar incondicionalmente. Vai ver é coisa de quem não se apega fácil, de quem se apega demais ou de quem chora ouvindo música . Vai ver é coisa de quem se sente só tantas vezes, de quem se sente amada ou de quem ainda espera. Vai ver é coisa de gente. É isso, vai ver é só coisa de gente.

Arte: Edward Hopper - Morning Sun

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

quinta-feira, 28 de maio de 2015

promessas


Eu não te prometo nada. Nadinha. Tá ouvindo? Na-di-nha! De mim, você terá dedicação, esforço, coragem, vontade. Mas isso não precisa de promessa, nem de solenidade, nem de padre, pastor ou que eu assine contrato em cartório, precisa de amor. Amor para entender nossos silêncios e barulhos, cuidar das nossas dores, dividir nossas tristezas, comemoras nossas alegrias, euforias e realizações. Amor para achar bom a leseira que dá, pra rir das bobeiras que falamos, pra tomar cerveja, café, água ou vinho  juntos com o mesmo prazer. Amor pra respeitar o tempo que o outro fica calado. Pra entender a euforia do outro quando a gente tá triste. Pra ficar do lado quando a vida tá esquisita. Pra contar segredos que nos machucam. Amor pra achar bom a viagem sem planos. Pra parar e ajudar alguém na rua. Pra ser educado com o garçom, o guardador de carro, o porteiro do prédio. Amor pra se reinventar, se reconhecer e se dedicar todos os dias. Amor pra levar pra cima, pra entender a baixa, pra chegar ao equilíbrio. Pra não se contentar com o nunca mais. Pra querer perto. Amor é cotidiano. Tá bom, eu te prometo o melhor cotidiano que eu conseguir criar. E a vida se encarrega de nós. Combinado?

Arte: Daniel Del Orfano

terça-feira, 26 de maio de 2015

entre livros


Precisava fazer alguma coisa. Não será difícil, tem tanta gente interessante no mundo, pensou enquanto retocava o batom e ajeitava o cabelo antes de sair para a livraria, seu lugar preferido do bairro, onde passava horas em devaneios literários. Sentou na cadeira de sempre, cumprimentou o atendente solícito de sempre, pegou um livro qualquer e começou a olhar ao redor. Vai ser fácil puxar conversa com aquele ali, já li o livro que ele tem nas mãos e adorei. Esperou um pouco, aproximou-se, falou sobre o tempo, como a livraria está cheia não, elogiou o livro. Ele contou que era divorciado, estava de passagem pela cidade para visitar o filho pequeno, vamos tomar um café, tem um aqui perto, não? Ela se desculpou, disse que já estava de saída. Esperou o moço sair e voltou para o seu posto de observação, a boa e velha cadeira companheira de tantas tardes. O atendente passou, perguntou se ela queria outro livro, alguma indicação. Mas ela estava focada no objetivo. Ele estranhou, ela estava diferente. Ela mirou do outro lado, na prateleira de livros jurídicos. Gostava de caras grisalhos, aquele parece um advogado experiente e é tão charmoso. Não entendia nada sobre o assunto, inventou que estava procurando um livro para um amigo, bateu o olho em um código qualquer e falou é esse. A conversa se estendeu por uns minutos, ele quis saber o que ela fazia. Ela falou que gostava de artes, era jornalista freelancer, solteira e sem filhos (ele não te perguntou isso!). Ela se esforçava para achar interessante o papo sem emoção e cheios de palavras difíceis, até que não aguentou e soltou um sonoro bocejo. Desculpe, tenho trabalhado muito, preciso ir. Ainda esperou mais uns minutos, deu uma olhada, viu um cara magrinho com fone de ouvido, um executivo procurando livros para os filhos ou sobrinhos, uma mulher comprando livros para colorir seu stress. Resolveu tomar um café. O atendente a chamou, ei, não vai levar nada hoje? Não, hoje não. Ele conhecia todos os hábitos dela, é meu horário de descanso, posso tomar café com você? Notei que estava estranha hoje, aconteceu alguma coisa? Nada, acho que estou cansada, muito trabalho. E procurar amor também dá trabalho. Como assim, procurar amor? Olha só, vim aqui hoje, disposta a encontrar o grande amor da minha vida, você mesmo sempre me diz que sou muito exigente. Um era divorciado, outro chato, outro...ele interrompeu. Tem certeza de que você está procurando um amor? Uma conversa de cinco minutos e você já sabe se é amor ou não? Faça-me um favor, isso chega a ser ridículo. Você está sendo grosso! Você sai com uma lista na cabeça do que quer encontrar. Um cara da idade tal, da profissão tal, que goste de tal e tal, e vem me falar que está procurando um amor? Você está procurando alguém pra ocupar um cargo! Namorado oficial da Fulana de Tal! Ela pensou em gritar esbravejar, xingar. Olhava para aquele menino tão mais novo, quem ele pensa que é para falar assim comigo, não sabe nada da vida esse moleque...mas só conseguia prestar atenção no jeito dele, no cabelo bonito que nunca havia reparado, na voz, nas palavras tão maduras pra alguém tão jovem. Ei, você não está nem me ouvindo! Quer saber, já me cansei disso. Todos os dias você vem aqui, a gente conversa horas sobre a vida, os livros, e no final você me trata como se eu fosse mais uma das prateleiras ou uma máquina de informações. E, ainda assim, eu só consigo prestar atenção no seu sorriso, nas histórias  que você me conta, no jeito que você fecha os olhos quando fica com vergonha, como você toma café segurando a xícara com as duas mãos. Ela ficou confusa. Nunca havia reparado nele, não daquele jeito. Lembrou das tardes de longas conversas, de como se entendiam e se divertiam juntos, como tudo fluía bem. Mas ele era o atendente solícito da livraria perto de casa, só isso. E era tão novo! Tenho que voltar para o trabalho. Eu também. Que horas você sai hoje? Às dez. Podemos sair pra jantar? Ué, mas você não vai sair pra procurar o grande amor da sua vida? Ela sorriu de olhos fechados, do jeito que ele conhecia tão bem.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 25 de maio de 2015

entre linhas


Fosse eu corajosa, mas corajosa de verdade, pegaria você pelo braço, levaria pra longe e te faria acreditar, ao custo que fosse, no que sinto por você. Jogaria para o alto todos as dúvidas, medos e paranoias e me preocuparia apenas em nos ver feliz. Fosse eu corajosa, te convidaria para um café de horas e horas e horas e mostraria meus fantasmas todos, minhas alegrias todas e meus planos mirabolantes e quase infalíveis. Mas minha única coragem é me fazer em mil palavras, me dividir em mil outros eus para me fazer notar, me colocar nas linhas e entrelinhas na esperança de que você me leia. É isso, amor, minha coragem é a esperança de que você, finalmente, me leia. 


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

futuro


Preciso trabalhar. Abriu a planilha, viu os números infindáveis, buscou coerência entre eles. Tenho que entregar esse relatório até meio-dia. A concentração ia longe. Levantou para tomar água, ar, achar o raciocínio. Negociou consigo mesma, volte, termine seu trabalho, fala pouco, o prazo está no fim. Pensou nas mãos, nos olhos, no sorriso. Números, fórmulas, relação. Lembrou das palavras. Aquilo era tão mais importante. As palavras eram tão mais importantes. Respire, meia hora e você dá conta. Precisa dessa grana, não pode se dar ao luxo. Visitou os olhos negros e curiosos mais uma vez. Pensou em ligar, em mandar um oi. Vamos, só mais um pouco de concentração. A soma não batia, as contas não fechavam. O que estava errado? Por que seria errado? Por que achava tudo tão errado? Refaça, comece de novo, estava tudo indo bem. Calma, vai dar tudo certo. Você sabe que vai. Ligou o rádio pra ver se o pensamento pensava em outra coisa e os números faziam sentido. Não se afobe, não. Que nada é pra já. O amor não tem pressa. Ele pode esperar em silêncio. Voltou ao trabalho. Agradeceu aos deuses dos amantes meio loucos. Saiu pra tomar um sorvete. Parou no café. O coração aliviado ainda precisava de calor. 


Arte: Edward Hopper
Amor e verdade sempre!

Telma De Luca

racional





Tentou, mais uma vez, colocar a cabeça no lugar. Era óbvio que aquilo era algum delírio adolescente tardio. Óbvio. Iniciou o procedimento de aterrissagem, a cabeça deveria voltar para o prumo, para o ponto racional e coerente onde sempre esteve. Não custaria nada para alguém sempre tão cartesiana, mera questão de querer, pensou. No esforço lógico, convenceu-se do absurdo, pesou prós, contras, talvez e senãos. Escreveu roteiros mentais, estabeleceu tempos, prazos, fez cálculos. Óbvio que era absurdo, como não tinha percebido antes. A cabeça voltava para o lugar. Numa órbita meio esquisita e pouco suave, mas voltava. Tocou o dia. A razão a havia salvado mais uma vez. O telefone tocou, o visor acendeu, pensou em não atender. Seria o melhor a fazer, afinal. Não insistiria mais no absurdo, não alimentaria mais aquilo. Estava certa do que queria. Atendeu. Sorriu por dentro, gargalhou por fora, sentiu-se feliz. O coração respirou aliviado. Ele, que não gostava dessa coisa de óbvio, havia vencido mais uma vez.

Arte: Brent Heighton


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

domingo, 24 de maio de 2015

inquieta



Saiu para espairecer as ideias, fumar seu cigarro, tomar um café, organizar o pensamento. Não sabia bem por que andava inquieta, desassossegada, com a cabeça longe das obrigações cotidianas. Um minuto e a imaginação voava, ia pra longe. Nem ela sabia exatamente pra onde. Não tinha mapas ou bússolas que a orientassem nessa viagem. Nem entendia se era felicidade ou apenas melancolia antecipada. A moça de verdades e olhares se perdia naquele caminho longo e algo lá dentro lhe dizia bote os pés no chão. O mantra repetido à exaustão a tirava da realidade um pouco mais. E sua imaginação voava mais uma vez. Bote os pés no chão. O cigarro imaginário não terminava, as ideias não espaireciam e o pensamento não se organizava. Inquieta, desassossegada, ela só queria que a viagem durasse mais para tentar entender o que lhe acontecia. Impossível. Antes de soltar as amarras e voar para perto do calor que lhe fazia bem, ainda pensou mais uma vez...bote os pés no chão. Mas era tarde demais.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

vontade





Que mistério é esse que habita nossos quereres, saberes, pensares e sentires e elege, à nossa revelia e sem o menor constrangimento, alguém mais especial do que todos os outros. No primeiro olhar ou na conversa franca e aberta ao pé do fogão com a taça de vinho na mão deixando tudo mais leve. Ao final da primeira ou da milésima frase, depois do primeiro sorriso ou da centésima gargalhada. À primeira vista, à primeira palavra ou anos depois de tudo isso. Fosse a perfeição, estaríamos fadados à dor eterna e fria da tarde de inverno solitária. Fosse a inteligência, pediríamos curriculum vitae em uma lauda. Fosse a beleza, nos apaixonaríamos profundamente por fotos sem vida. Fossem os filmes favoritos e correríamos todos para a fila do cinema. Fosse nada disso e seríamos eternos buscadores. Assim, sem vergonha e sem juízo, entre nossas sinapses regulares e metódicas, vem o descompasso bom que chega a fazer cócega no peito e na alma. Que vontade de ver de novo, de falar de novo, de tomar mais uma taça de vinho. De ouvir mais uma palavra, de dividir o silêncio e o sofá na tarde fria de inverno. De jantar, de tomar café da manhã, o café da tarde talvez. De comer pizza, croissant e de jantar no japonês. De ir ao cinema, comer pipoca e até de filme em javanês. Vontade. O especial mora na pura, simples e quase banal vontade.

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

quarta-feira, 20 de maio de 2015

mania

Preciso parar com essa mania. De disfarçar cada vez que o coração acelera. De querer enlouquecer serenamente cada vez que o corpo arrepia. De desejar ser outra cada vez que me despeço. E de silenciosamente gritar para não ser ouvida. Preciso parar com os argumentos. E simplesmente viver.

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

domingo, 17 de maio de 2015

saudade

E de repente eu me pego sentindo saudade. De ouvir, de sorrir, de ver, de sentir. Chega de manso, aninha no coração, faz morada no peito e leva o pensamento lá longe, pra perto de você. Dá vontade de contar como foi meu dia, que espero eu da vida ou só que às vezes alguma coisa aqui dentro dói.   No pensamento, crio nossas conversas imaginárias e intermináveis, abro o coração pra ouvir como foi seu dia, o que você espera da vida ou se alguma coisa aí dentro lhe dói. Penso no seu sorriso bonito e adormeço. Adormeço de tanta saudade.



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

quinta-feira, 7 de maio de 2015

cinzas


Saiu pra comprar pão e sentiu no ar a estranha mistura de samba, sexo, suor, cerveja e xixi. Viu uns largados pelo chão, outros tentando balbuciar um grunhido, marchinha, axé, funk ou sei lá o quê.  Risadas, vozes alteradas, aquilo no canto do olho da moça que passava desinibida e quase pelada pareciam lágrimas.Na recém-comprada tv 42 polegadas da recém-reformada padaria do Seu Januário, a reprise dos desfiles  parecia um looping sem fim, repetição ad eternum de sorrisos, bundas e peitos plastificados que pipocavam na tela pro delírio já meio broxa dos que tomavam sua média no balcão. O cheiro do café forte e do pão fresco trazia todo mundo de volta à realidade, à vida prosaica e bem menos purpurinada do dia a dia. Era o antídoto dos excessos. O pó de pirlimpimpim às avessas. O chacoalhão depois do Réveillon tardio e prolongado que inaugura de verdade os trabalhos do ano. Ao meio-dia, a vida voltaria ao normal. 



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

espelhos




O espelho do elevador me reflete infinitamente. Milhares de mim me fazem companhia no espaço cubicular e eu penso, na rápida viagem do subsolo ao quarto andar, que o grande mal humano é não saber discordar, não saber ouvir o contrário e nem aceitar o diferente. Melindrados que somos, opiniões contrárias nos ofendem e magoam. Se discordam, não respeitam meu ponto de vista. Buá. Semelhanças, comparações, equiparações. Se eu sou igual, eu pertenço. Se eu tenho o mesmo, sou igual. Se eu tenho, eu pertenço. Viva a igualidade, pois. Carne moída e ainda passada no rolo compressor, não conheceu nem a felicidade de viver solta. Repetimos, refletimos, iguais. Iguaizinhos, buscando uma casinha pra chamar de sua. A felicidade suprema do mundo de pessoas-espelho. Talvez a ignorante pretensão seja tanta que pense ser sorte ver milhares de si mesmo andando por aí, arremedos de felicidade em uma placa de vidro nos aplaudindo e concordando. Sem perceber, é assim que a essência humana começa a morrer.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

sexta-feira, 1 de maio de 2015

big fish



o pescador



O que faz você atravessar mares, oceanos, tempestades e persistir? O que faz você esquecer do tempo, do dia, da noite, da fome e mesmo assim seguir? Talvez você esteja enfrentando dias de mar fraco, desacreditado da sorte e da fartura do mar da vida. Talvez já tenha encontrado seu big fish e esteja apenas o protegendo das tormentas e ameaças. Se for isso, repense. Ele ainda é seu big fish? Virou mero motivo de orgulho e glória? Ou você se acomodou na solidão da busca? Talvez ainda sejam necessárias outras e infinitas viagens para finalmente alcançá-lo. Talvez você ainda nem saiba qual é o seu. Talvez já tenha desistido algumas vezes e a fome, o sol e sal quase o estejam fazendo desistir mais uma vez. Pare, olhe para dentro de si, mergulhe fundo, sem medo. Alma é feita pra brilhar, pra iluminar nosso caminho e o dos outros. Quando a gente se olha no espelho e não se reconhece, olha para o sol e se entristece, sente frio e se incomoda, desassossega demais, é hora de parar e escutar a alma. No silêncio das nossas vontades mais profundas, com certeza ela nos sussurra os melhores caminhos.

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

saudade




No frio do quarto, depois de um filme bom sobre o tempo e o amor, ela começa a se revisitar. Passa numa saída de escola, vê pequenos seres cambaleantes que mal aguentam o peso da mochila desproporcional, e sente saudade. Da alegria a cada primeiro dia de aula, com seus cadernos tinindo de novos, cheirando à tinta das pautas azuladas. Ou do seu pânico de ser descoberta meio encolhida no canto da sala na hora da chamada, quando falar presente parecia um ato heroico de responsabilidade suprema e o mundo um enorme observatório voltado para sua voz fininha e meio falha. Lembra dos recreios, dos joelhos ralados e das primeiras paqueras. Do grupinho dos nerds, dos mais mais, dos desligados, dos desajustados, da turma do fundão. Lembra de todos os sonhos, das promessas de amizades eternas escritas com caneta colorida e cheirosa no caderno de páginas enfeitadas. Lembra do medo do boletim, da prova meio mal-estudada, da professora de cara amarrada e bom coração. Dos professores velhinhos de 30 e poucos anos. Das noites de música na beira da piscina, interpretando letras de música que às vezes não faziam sentido nenhum e a instigavam tanto. 
Lembra do quanto já precisou de um olhar de aprovação que desse aval para suas qualidades mais íntimas. Lembra dos bailinhos, de esperar o menino bonito a tirar pra dançar e passar a noite toda alimentando a esperança secreta de que ele descobrisse como ela era bacana, afinal. Lembra da faculdade, da curiosidade, dos amigos diferentes que não estudaram a vida inteira na escola junto com ela, do que mudaria depois daquilo tudo. Lembra de quando foi ao bar e saiu meio tonta pela primeira vez, do porre de saquê num aniversário qualquer, dos trabalhos que consumiam tardes e noites de música e risada. Lembra da inocência de tudo isso, da preocupação séria com trabalhos e notas. Lembra do primeiro amor, da primeira decepção, do primeiro drama, da carta que escreveu em forma de desabafo e declaração e de como aquilo lhe custou coragem. Lembra da primeira dor realmente profunda da sua vida. Lembra das viagens que fez, da importância de cada uma delas, mesmo que não tenham sido nem pra tão longe assim. Lembra de quantas vezes acreditou que seria pra sempre. E de quantas vezes trabalhou arduamente pra fazer com que desse certo. Lembra de quantas vezes entrou na barca sabendo que era furada e mesmo assim chorou depois. De quando entrou na barca que parecia furada e ela acabou levando a moça mais longe. Lembra que deve ter gente que ela nem se lembra mais. Lembra do que fez, do que deixou de fazer, das suas palavras que machucaram alguém e das palavras que a machucaram também. Pensa em confiança e desconfiança, no beijo afobado e desajeitado, no beijo bom e quente, no beijo que nunca aconteceu. No que faria se pudesse voltar no tempo. Quais palavras repetiria e quais jamais falaria de novo. Em qual amor teria botado mais fé. De qual teria desistido antes da primeira briga. Qual viagem teria aceitado na última hora. Qual chamada teria respondido com menos vergonha. A qual bar teria ido mais vezes. 
Talvez fizesse tudo igual, com pequenos ajustes nas doses de insegurança e precaução. Talvez recolorisse alguns dias e deixasse outros em stand by. Talvez revivesse tudo com olhos menos ansiosos e mais atentos. Talvez se dê conta de que seguir acreditando em cada dia, na vida e no futuro, é a melhor maneira de criar um filme bom de assistir. E adormece embalada por uma fé profunda nas manhãs seguintes e na beleza da outra parte do filme que ela vai revisitar quando a saudade (ou a insônia) bater de novo.

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

simples

Um encontro simples, sem pretensão ou memória. Talvez apenas mais um, pensaram os dois, já meio escaldados pelas águas que a vida jogava vez ou outra. Sorrisos, olhares, proximidade. Pura vontade de estar mais perto e um pouco mais perto e um pouco mais perto. Talvez estivessem se sentindo em paz. Alegria? Felicidade? Sorriso de comichão que nasce em algum lugar da barriga ou do peito e costumam atribuir às borboletas. Essas devem ser borboletas poderosas, ela pensou entre um gole e outro. Deve ser verdade que o bater de asas de uma delas pode causar um vendaval no outro lado do mundo, ele pensou.
Ficaram tontos de café, conversa e vida. Embriagaram-se. Mas o relógio, injusto que só, andou rápido demais . Ele não se preocupou em cumprir nenhum “papel de macho”. Ela foi apenas o que sabia ser. Em meio a tantos senão, talvez e serás que sempre aparecem quando os corações resolvem se revelar, eles tinham certeza. Não sobre o futuro, nem sobre a vida ou sobre o amor. Mas a certeza que daquele dia em diante fariam parte da vida do outro de alguma maneira. E aquilo bastava. 

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca