sexta-feira, 19 de junho de 2015

oi



Pensou em escrever uma carta de despedida. Sentou diante do computador, desligou o celular, botou uma música, digitou três palavras, apagou, reescreveu. Começou pelo apelido, achou carinhoso demais pra uma carta de despedida. Digitou o nome inteiro, formal demais, nunca tinham se chamado assim. Querido? Não, soava falso. Começou com "Oi". Vírgula. Pensou em escrever como era ridículo ela escrever aquilo. Que não havia do que se despedir, porque falar tchau, adeus ou até logo. Ninguém se despede do quase. Mas ela andava com nós na garganta, sabia que precisava dizer ou morreria sufocada com tantas palavras guardadas. Voltou. Oi. Vírgula. Por que eu estou fazendo isso? Ele vai responder o quê? "Sinto muito", "pena que tenha sido assim", "o problema sou eu"? Ela não queria saber de nada disso. Não do que já sabia. Ela queria que ele lesse e tivesse os olhos cheios de lágrima e pensasse nos dois com carinho e desistisse de ir embora. Que ele lesse e jogasse tudo para o alto, pegasse o telefone pra falar "estou passando na sua casa agora". Mas ela sabia que nada disso ia acontecer. Ele não sairia correndo, não pegaria o telefone, não pensaria nos dois com carinho, não teria lágrimas nos olhos. Desistiu, se sentiu ridícula. Fechou o computador. Saiu. Do outro lado da cidade, alguém com lágrimas nos olhos em frente à tela do computador começava. Oi. Vírgula.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

terça-feira, 16 de junho de 2015

espaços




O dia cinza não encorajava o passeio, a saída, a caminhada despretensiosa. Mas ela precisava espairecer as ideias antes de terminar o dia de trabalho cansativo e burocrático. Precisava respirar além das paredes do quarto-home-office, sentir cheiro de café, de rua, de poluição, ouvir passarinhos, ônibus, caminhão. Saiu sem rumo pelo bairro, respirou fundo algumas vezes, reparou nas pessoas que passavam apressadas e entretidas com suas telinhas iluminadas. Todas entretidas, vendo a vida por imagens, luzes e sons, rindo ensimesmadas. Quem sabe estivessem recebendo uma piada boa, uma notícia boa, um novo amor instantâneo. Quem sabe estivessem vendo seus e-mails de trabalho, dispensando o cara chato ou só passando o tempo.
Ela saiu olhando para os lados, para o alto, para tudo e para todos. Tinha mania de puxar conversa com qualquer um na rua, mas isso era cada vez mais raro. Corria o risco de a fulminarem por terem se distraído com seu oi despretensioso. Ficou andando em silêncio, mirou milhares de coisas, mas o pensamento não estava ali.
Passou em frente ao bar que costumavam frequentar, viu o garçom de rosto familiar, acenou de longe, ele perguntou por que não ia mais lá, disse que estavam com novidades. Ela falou que iria aparecer qualquer dia, mas sabia que voltaria somente com ele. Seu pensamento foi longe, atravessou a janela do apartamento, fechou as cortinas. Estava em casa assistindo ao filme meio sem graça, tomando café para espantar o frio, a solidão e as chamadas insistentes de gente que não a interessava e nem a fazia sorrir. De repente, um toque diferente, que ela nem se lembrava mais.

- Oi, tudo bem?
- Tudo e você? Quanto tempo...
- Pois é, muito trabalho ultimamente, alguns projetos novos...
- Imagino...eu também ando trabalhando bastante, mas os meus são os mesmos projetos de sempre - disse, sorrindo meio sem-graça.
- O que tem feito?
Ela teve vontade de responder "além de pensar em você?", mas achou melhor manter a cabeça no lugar:
- Trabalho, trabalho e trabalho. Não posso nem me dar ao luxo de falar do trabalho pra casa, já que continuo trabalhando em casa né?
Ele sorriu. Desde sempre, achava graça nas piadas sem-graça dela.
- E você? Quais são os projetos novos? Mudou de emprego? De carreira?
- Vamos sair pra colocar a conversa em dia? Aí eu te conto. O que você acha?
- Vamos, claro! A gente marca, então...
- Não, vamos amanhã. Você pode?
- Posso...Onde?
- Naquele bar de sempre?
Ouvi-lo falar de um jeito tão familiar e próximo fez bem, ela pensou em fazer charme, dizer que não podia. Mas aquilo não cabia entre eles, nunca coube. Aliás, nem sabia por que tinham passado tanto tempo sem se falar, já que se queriam tão bem.
- Tudo bem, combinado. Às nove?
- Combinado.

Inacreditavelmente, ela não estava ansiosa. Ela, a mais ansiosa de todos os ansiosos do planeta Terra, estava calma.  Ele chegou, se abraçaram longamente, deram um beijo no rosto meio sem-jeito e foram andando até o restaurante. Começaram a falar de trabalho, da vida, das famílias, dos cachorros dele, filosofaram sobre o mundo como costumavam fazer. O garçom os reconheceu, veio recebê-los animado. Sem pensar, pediram o mesmo de sempre. O mesmo prato, a mesma bebida. A conversa se estendeu noite afora. Era bom. Sempre era bom. Os dois sabiam o que iria acontecer. Não se prometeram nada, não fizeram juras de amor, não disfarçaram nem dissimularam nada. Isso não cabia entre eles.

- Com licença, você está atrapalhando o caminho!

A moça com carrinho de criança e pouca paciência trouxe seu pensamento de volta à porta do restaurante no meio da tarde fria.  Ainda passou na padaria para comprar um cappuccino antes de voltar para casa, com um misto de sensação boa e da saudade doída que a acompanhava. Viu o celular piscando, pensou nas mensagens indesejadas, nos aplicativos superficiais que a irritavam e não a preenchiam há muito. Entre tantos, o nome dele no visor. Tremeu, sentiu o coração acelerar, hesitou alguns minutos.

Tô indo viajar depois de amanhã...
Saudade...
Beijo
;-)

Pensou um pouco, sabia exatamente o que queria dizer. Mas os dedos foram mais rápidos do que o pensamento.

Boa viagem!
Também!
Beijo
;-)


Ela chorou em silêncio pela falta de coragem. Ele desistiu mais uma vez. A chuva chegou forte. Ela fechou as cortinas. Ele fechou a mala. Tristemente, o medo estava fazendo eles esquecerem o que cabia entre eles.


Trilha: Coat for a Pillow - Josh Rosue


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 15 de junho de 2015

embora



Não sabia por onde começar. A inspiração dava as caras desavergonhadas na madrugada e se recolhia durante o dia. Talvez precisasse adotar um caderninho na cabeceira da cama para não se esquecer dos próprios pensamentos.
Pensou que sua mão havia silenciado temporariamente. Mas era apenas desassossego, que para ela era mais venenoso do que a tristeza, o choro, a dor. Esses a levavam adiante de alguma maneira, a felicidade também. Gostava de escrever quando estava feliz, ainda que lhe custasse mais esforço para deixar a vida passando ensolarada lá fora nessas horas. Sentia que escrevendo estava fazendo pouco da felicidade que passava acenando e quase se angustiava, mas a inspiração lhe saía pelos poros, pelo suor. A tristeza tornava seus textos um tanto sombrios, mas a ajudava a seu modo torto e completamente humano. Quando sentia dor, escrever era expurgação, o jeito de mandar para as palavras os cortes lancinantes e certeiros que causavam suas lágrimas mais secretas. O desassossego trazia não a deixava completar palavras, frases, tornava parágrafos sacrifícios totais e completos. Tentava ainda mais uma vez quando percebeu que a página estava quase completa.  Algo lhe doía de um jeito esquisito no meio da tarde com a chuva caindo lá fora. Algo que a fazia voltar para um lugar que não gostava, a um tempo que não gostava, de um jeito que não gostava. O desassossego a vestiria melhor naquela tarde e a aqueceria da vida. Mas só doía. As palavras caíam feito lágrimas e ela só pedia para que elas fossem embora. Pela primeira vez, suplicava para que as palavras fossem todas embora.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

domingo, 14 de junho de 2015

frios




Sentou no café de sempre para ler, pensar na vida, o que fosse capaz de deixá-la aliviada da ansiedade. O pensamento ia longe, ela olhava para os lados e via pessoas mudas conversando entre si, não conseguia parar o ouvido em nenhuma conversa alheia, como gostava (deseducadamente) de fazer. Os pensamentos passavam voando feito borboletas, asas de beija-flor, joaninhas afobadas. Milhares deles em revoada na sua cabeça, no peito, no coração. Não era o voo livre e desimpedido, era o voo meio sem jeito e sem rumo de quem procura caminho claro e nem sempre encontra, podia senti-los se debater dentro de si. Não que a sensação fosse de todo ruim, mas trazia um desassossego vital, alguma inquietação maior e sobre a qual ela não tinha o menor controle. Os goles de café a faziam esquecer do frio lá fora, mas nada matava o frio lá dentro. Ela trazia esse frio dentro de si desde que se entendia por gente. Não que fosse triste, exatamente. Não era. Em boa parte do tempo, era a mais resoluta e firme otimista que alguém poderia conhecer, sempre crente no trabalho duro e na sorte como solução de todos os problemas do mundo. Sempre pronta a estender as mãos, os ouvidos e os braços por quem quer que fosse. Sabia o poder de um sorriso nascido das entranhas. Sabia que a gargalhada já a havia tirado de buracos profundos. Sabia que as palavras podiam salvar uma vida, uma tarde ou um amor meio desacreditado. Mas tinha esse frio, esse senão de sempre, essa dúvida, essa desconfiança. O pessimismo que às vezes fazia morada, trazendo mala e cuia e pretensão de permanecer por longos tempos na sua casa. A desconfiança eterna, sua maior luta e sua maior proteção. O frio capaz de congelar projetos, vontades e desejos. As lutas constantes e inevitáveis que a faziam humana. Os embates solitários que acabavam por fortalecer a eterna menina que sobrevivia dentro dela de alguma maneira. Tinha esse medo que a paralisava em tantos momentos. Tinha um olhar que se perdia em sonhos tantas vezes. A leitura que a acalmava e fazia a imaginação mais viva. Desde pequena, era assim que se conectava a si mesma, ao seu dentro, ao seu mundo. O livro estava quase no final quando viu a frase que lhe valeu: "as aranhas só tecem em dias nublados".  Se deu conta de que o frio que se instalava de quando em vez, a seu jeito, a tinha feito caminhar em muitos momentos, só de teimosia pra não deixar o coração congelar de vez. Muitos de seus dias nublados que a tinham levado adiante, feito sua vontade renascer tantas vezes. Se deu conta de que alguém chegou para entender seu frio e se contentar com seu calorE juntos tomaram café apenas pra espantar o frio lá de fora. 


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

quinta-feira, 11 de junho de 2015

Já me machuquei por amar muito. Já machuquei por amar pouco. Já tentei consertar o que não tinha mais jeito. Já fui embora antes de ver se tinha conserto. Já falei bobagens maiores do que deveria. Já ouvi ofensas maiores do que merecia. Já duvidei por paranoia. Já me magoei por bobagem. Já passei por cima de coisas em que acreditava. Já plantei sonhos que não brotaram. Já perdi sonhos lindos no meio do caminho. Já me reconstruí, já me afundei, já me refiz, já me aceitei, já me odiei, já me conformei, já amei, já aceitei, já desisti, já voltei a acreditar. Já tive medo infantil. Já tive medo de assustar gente grande. Já respirei fundo pra não surtar. Já surtei. Já acreditei que seria pra sempre. Já acreditei que não duraria meia hora. Já me arrependi de fazer. Já me arrependi de não ter feito. Já desviei o olhar por medo, Já baixei o olhar por vergonha. Já inchei os olhos de tanto chorar. Já molhei os olhos de tanto rir. Já quis perto quem não devia. Já quis longe quem me queria. Já tive Dia dos Namorados sozinha. Já passei Dia dos Namorados feliz. Já comemorei Dia dos Namorados por obrigação. Já tive expectativa. Já tive decepção. Já tive alegria. Já tive tristeza. Já tive dor. Já tive solidão à noite, de dia, na chuva e no sol. Já perdi a hora, o tempo, a razão. Já deixei pra lá. Voltei a plantar sonhos desde há pouco. Já não vejo a hora de realizar.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

coragem

A gente não devia ter vergonha de amar, mas às vezes tem. O coração sente, reconhece, acelera, aperta, dá nó. Nos noites insones, voa longe, vai pra perto de quem a gente queria que estivesse aqui, faz afago, volta, sente euforia, sonha, se aninha pra aquecer. Fica inquieto, tem vontade de pular, gritar, falar as palavras certas e lindas pro outro coração do lado de lá acreditar. Mas de repente sente vergonha. Pensa em um monte de regras que nos ensinam desde sempre, em um sem-fim de convenções e normas que alguma Sociedade Secreta Anti-Amor desenvolveu porque não tinha nada melhor para fazer. Não pode, não deve, não é certo, não, não, não. Aí ele se esconde, se disfarça em outras palavras, se contenta com o quase, engole mais um não e o choro, se entristece. Faz que nem criança quando tá triste e aperta bastante os olhos pra fingir que tá dormindo e ninguém perceber. Aperta tanto, mas tanto, até que dorme de verdade. Quando acorda, o tempo não é mais o mesmo. O disfarce virou verdade. A vergonha venceu a coragem. O amor deu lugar ao vazio, Em algum lugar, alguém da SSAA comemora. O coração se irrita, não gosta quando tripudiam do que sente. Estufa o peito, infla a alma de coragem. Dá o primeiro passo, afasta dúvidas, titubeia, respira fundo, recua, cai, segue, não vai desistir assim tão fácil. Não sem tentar o que manda o fundo da sua vontade. Não sem ouvir a sua voz interior. Ao encontrar o coração que o faz sorrir, mira bem no fundo dos seus olhos escuros. Ali, sabe que não há regras, convenções ou normas. São apenas dois corações conversando de igual para igual, falando a mesma língua, desejando amor. Ali, está a verdade que interessa. Ali, há vida, há plenitude, há paz. Alguém da SSAA chora. Foram derrotados mais uma vez.  



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 8 de junho de 2015

hoje

Tem dias que são assim. A gente finalmente para de pensar só no futuro, no que será, no que não vai acontecer e se concentra no hoje. Faz igual criança aprendendo a andar pé ante pé meio desajeitada, ganhando cada centímetro de chão como se fosse mundo, cada passo a mais como fosse maratona completa, cada ambiente novo como território inteiro. Tem dias em que a gente ganha alguma paz de presente, algum sorriso de graça, alguma recompensa que nem esperava mais. Tem dias em que a gente ganha a felicidade no cotidiano, o coração acelerado no meio do dia, o pensamento bom no meio do trânsito infernal, a calma no meio do caos. Tem dias que são assim. A gente tem vontade de falar ao mundo que tá feliz, sem mais o quê.  Deixa pra lá o medo do olho gordo, da má fé e da ignorância e acredita no hoje. Prefere construir o tijolo com carinho e dedicação, mesmo que a parede pronta não fique perfeita. Subir o degrau com calma e paciência, sem nem saber direito o tamanho da escada que vem pela frente. Confiar na vontade como força propulsora do fazer o bem acontecer. Tem dias que são assim. São bons assim como hoje.

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

quarta-feira, 3 de junho de 2015

desatentos



Não se viam há exatos seis meses. Não sabiam exatamente por que, mas a vida os tinha colocado em pontos opostos e ligados apenas por rápidas mensagens aqui e ali. Quando se reencontraram por acaso naquela tarde, continuavam amigos que se queriam bem e cheios de novidades para colocar em dia. Decidiram se refugiar da chuva no café mais próximo para falar sobre seus novos trabalhos, suas tentativas, suas frustrações, seus planos futuros. A conversa se estendeu sem que eles se dessem conta, como sempre. Eles sabiam o quanto se faziam bem e como aquela amizade tinha mudado a vida deles de alguma maneira. O  garçom com cara de poucos amigos perguntou se ainda queriam mais alguma coisa, já iriam fechar. Pediram a conta. Ele segurou firme nas mãos dela e falou o quanto estava feliz por estar ali. Ela tremeu por dentro. Se despediram debaixo da chuva grossa com um abraço demorado. Ele não percebeu as lágrimas dela. Ela não percebeu a vontade dele de ficar.

Arte: Leonid Afremov


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

terça-feira, 2 de junho de 2015

hernéticos

Enquanto teorizamos o amor
A pessoa ao nosso lado nos olha esperançado
Pelo sorriso que for

Quem tem de formular teoria é físico
Químico
Ou matemático

Pra viver o amor
Melhor ser abstrato
Bem pouco prático
Quem sabe até um pouco lunático

Pra sentir o amor
Melhor descer do salto
Baixar o nariz do alto
Deixar pegar o calor

Ou fazer tudo isso
Pra causar rebuliço
Sem temer o tremor

Sacar que não existe perfeito
Aceitar o sorriso sem jeito
E pintá-lo com lápis de cor

Pode seguir a lógica insana
De que tudo na vida se explica
E uma teoria se aplica 
Na situação que for

Pra mim isso é coisa de cético
De coração hermético
Se protegendo da dor

Agora, sinceramente, se responda
Se nem você acredita
Quem é que vai acreditar
No seu amor?


Amor e verdade sempre!

Telma De Luca

incógnita

Fosse amor, falaria aos quatro cantos
Fosse saudade, chamaria até perder a voz
Fosse dor, choraria até dormir
Fosse indiferença, minha mudez bastaria
Fosse tudo, seria vida
Fosse falta, seria morte
Mas a incógnita é apenas loucura.

Amor e verdade sempre!

Telma De Luca

Viva o amor!







Em pleno 2015, é de assustar a indignação causada por um comercial que exalta todas as formas de amor. Apesar de o foco do ódio serem os casais gays, vale pensar sobre todos os tipos de preconceitos e ódios que rondam nossas relações amorosas.
A mulher mais velha está com o cara mais novo porque é desesperada, porque é um ridícula ou porque é rica. Enquanto o cara novo está com ela porque é um grande gigolô, explorador de mulheres inocentes e meio tapadas. A mulher mais nova está com o cara mais velho porque ele é rico, necessariamente. Ah, tá bom que ela gosta desse velho, conta outra! Tá de olho no dinheiro dele. O negro se casa com a loira porque "tá vendo só, até eles são preconceituosos, não gostam de negras". A negra se casa com o branco para satisfazer os impulsos sexuais dele, você não sabia? Elas são mais "quentes" (leia-se "mais vadias"). Os homens homossexuais são todos promíscuos, é da natureza deles, você não sabia? Não existe relacionamento estável, eles só querem putaria. E os casais de lésbicas? Sapatas, frustradas e mal-comidas. Não encontraram homem que desse jeito nelas.
Não importa quão interessantes são as pessoas umas para as outras. como aquelas histórias, conversas, sexos ou silêncios se encaixaram. Não importa se o encontro deles lhes salvou a vida, o dia ou as noites de insônia. Não importa se o sorriso de um alimenta o outro e o faz ir adiante resoluto e forte. Nada disso interessa diante de olhos cheios de ódio e frustração, com um pitada de moralismo de gosto  duvidoso.
Pessoas dispostas e que se amam vão enfrentar olhares enviesados de desconfiança e reprovação juntas e podem aprender a não dar bola em algum momento. Talvez não suportem a pressão e desistam de si mesmos. Ou escolham o caminho aceito pela maioria e vivam frustrados pela vida afora. Mas eu me pergunto: como podemos achar normal estar em um mundo onde as pessoas têm de estar dispostas a lutar não pelo amor de quem lhes é caro, mas contra o ódio que cabeças doentes impõem?  Quando finalmente vamos conseguir ensinar nossas crianças sobre a beleza do amor e o horror da intolerância e do ódio? Quando finalmente vamos entender que não existe errado onde existe respeito e amor? Vem, vamos juntos. Vamos todos juntos dar um viva a todas as formas de amor. Todos os dias.




Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 1 de junho de 2015

mudo


Pensou em contar pra mãe, pro pai, pro bispo. Pro amigo, pro inimigo e pro vizinho. Gritar a plenos pulmões no meio da rua.  Saibam todos que é isso mesmo! Falar, assumir, descontrolar. É isso. É isso mesmo! Pensou em pedir conselho pra curandeira, pro pastor, pro pai de santo, pra floreira . Pensou em fazer mandinga, pedir perdão, levar a paz . Pensou em gritar e fazer todo mundo ouvir. Pensou em desistir. Pensou em se esconder. Pensou em guardar pra si. Pensou em como era ridícula. Pensou que ficaria rouca. Pensou que não iria ouvir. Pensou que o silêncio a salvaria mais uma vez . Silenciou. Seguiu. Gritou. Ninguém ouviu. Ela suspirou. Seu coração estava mudo, finalmente.



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

quê?




A moça acorda, se arruma, se perfuma, bota uma corzinha na boca e uma roupa bonita porque sempre disseram pra ela que o amor pode estar na esquina, na padaria, no café, no supermercado, até no posto de gasolina. Que ele só chega em gente que tá distraída pra deixar o tal do acaso acontecer. Em quem finge que não tá esperando pelo dia, hora e o minuto em que ele resolver virar a esquina com cara de poucos amigos e depois de um esbarrão o pedido de desculpas revelar o sorriso acolhedor e os olhos brilhantes que ela sempre esperou. E assim ela sai, distraidamente preparada para o encontro que mude sua vida, seu rumo, até seu pensar ou a batida do coração. E os encontros acontecem, os sorrisos chegam, as possibilidades existem. Mas ela vasculha o coração e pensa quantas possibilidades deram de esbarrão com ela e o sorriso não fez nem a cócega de meia poeira da asa de borboleta na sua barriga ansiosa, o olhar brilhou menos do que sol em dia chuvoso, fez o filme à noite sozinha no sofá continuar interessante. E segue, guardando em algum lugar especial a esperança de que uma hora o acaso dê uma rasteira nela logo ali perto da esquina e apareça um rapaz com uma caixa de band-aids, sorriso bonito e olhar brilhante pra ajudar a consertar seus machucados, dúvidas e certezas.
O moço acorda, se arruma, se perfuma e vai pra vida. Sempre disseram pra ele que o amor pode estar na esquina, na padaria, no café, no supermercado, até no posto de gasolina. Que mulher adora um elogio bem falado, um olhar mais demorado, um carinho no pé do ouvido. Disseram que o mundo é cheio de possibilidades, oras. E ainda tem mais mulher do que homem no bairro onde ele mora, veja só que vantagem. Disseram também que o amor de verdade só chega em quem está calculadamente distraído, depois de ter esquecido aquela que te fez beber na mesa dos bares por noites e noites. Ele vasculha o coração e pensa quantas possibilidades o fizeram, afinal, sorrir sozinho, no meio da tarde, lembrando de qualquer coisa ou de nada. E segue, guardando em algum lugar a esperança de que numa diversão dessas apareça aquela que faça o elogio não ser da boca pra fora, o olhar se demorar por mais do que uns minutos gulosos e o cantarolar baixinho da música ridiculamente brega abrir um sorriso no meio da tarde, no trânsito, na chuva. Pensa que deve ter razão quem diz que o amor só nos pega distraídos. Coloca alguns band-aids no bolso e sai.



Amor e verdade sempre!

Telma De Luca

imperfeitamente, senhor.


Sou dessa gente imperfeita. E, olha, no nosso Incrível Mundo de Pessoas Perfeitas, não é fácil, não.  Porque esse negócio de imperfeição não é assim, coisa daquelas que a gente aprende num curso rápido pela web, nem numa graduação de quatro anos. O quê? É coisa de dia após dia de imperfeições banais e cotidianas. Banalíssimas e cotidianíssimas, eu diria. É coisa de meter os pés pelas mãos, dar com a língua nos dentes, virar de cabeça pra baixo. Coisa de ter paranoia quando não precisa, confiar quando não devia ou assumir o que não gostaria. Mandar aquela filha da mãe de mensagem desnecessária, querer proximidade com quem não está nem aí, forçar intimidade com quem não tem afinidade. Esse negócio de imperfeição é coisa de quem tá se esforçando pra viver de um jeito imperfeitamente decente e honesto. É coisa de quem não se engessou só para não errar. É coisa de quem não se cristaliza num tempo pretérito e tão melhor do que o hoje. É coisa de quem vai indo. Às vezes bem, obrigado. Às vezes, só indo. Às vezes, devagar, quase parando. Mas vai. Imperfeição é coisa de quem vive. Mesmo que queiram nos fazer acreditar que não.



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca