sexta-feira, 31 de julho de 2015

ficar

 


Tem quem ache que ele acontece quando existe um sem-fim de semelhanças. Tem quem pense que é quando as diferenças são mais interessantes. Tem quem diga que foi à primeira vista. Outros contam que foi depois de anos de convivência. Há ainda os que nunca sentiram de verdade. E os que vivem de sentir e sentir e sentir e, no fundo, não sentir. Tem um tipo que se chama amizade. Tem o incondicional. Tem o eterno. O efêmero. O profundo. O equivocado. Tem o que a gente acha que é, mas não é. Tem quem não valoriza o que recebe. Tem horas que a gente enxerga onde não tem. Tem horas que não vê o que está do nosso lado. E tem horas que a gente sente sem mais o quê. (Sempre) é bom quando chega, (sempre) dói quando acaba, mas o melhor, melhor mesmo, é quando ele fica. É quando ele fica, amor.

Arte: Amanda Cass

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 20 de julho de 2015

definições

 
Ela não sabia de mais nada desde há pouco. Sabia não. O tanto de certezas e constâncias inconstantes da sua mente andavam confusos, aturdidos, e isso não era de todo ruim. Era não. Sensações e sentimentos não encontravam desenho que os descrevesse de um jeito ininteligível e passeavam pelo seu corpo e por sua cabeça de tempos em tempos.  Às vezes de um jeito leve e bom, noutras de um jeito saudoso demais. Ela andava sentindo faltas constantes de um certo sorriso. Nem sabia se saudade era o nome, já que o tempo não importava. Vai ver que o dicionário tem alguma palavra melhor pra quando a gente falta do outro sempre, sem intervalos regulares e em condições variadas de pressão e temperatura. Ou pra falta que aparece no dia seguinte, antes da ligação seguinte, entre o encontro e a despedida. Ou pra quando é uma saudade do que nunca vai acontecer. Deve ter alguma palavra boa pra tudo isso. Deve sim. Na falta de outra, ela acha que isso é algum tipo de amor mesmo. Mas sabe como é, suas certezas foram embora há tempos...então ela sente e deixa os dicionários pra quem é de definições. Pra ela não.

Arte: Amanda Cass


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

quinta-feira, 16 de julho de 2015

vontade



Amor. Alimento. Alegria. Saudade. Suspiro. Sentido. Carinho. Corpo. Arrepio. Vontade. Verdade. Vontade. Alegria. Alimento. Amor. Suspiro. Sentido. Saudade. Arrepio. Corpo. Carinho. Vontade. Vontade. Verdade. Amor. Amor. Amor!

Arte: Amanda Cass

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 13 de julho de 2015

um qualquer



Sou dessa gente que anda por aí achando que o mundo é um lugar complicado, esquisito e bom de viver. Que duvida, acredita, pergunta e responde sem ter muita certeza, mas acha que tem certezas inabaláveis e inquestionáveis. Sou dessa gente que anda rápido quando o dia tá lento, devagar quando o dia tá apressado ou que nem repara como está o dia e nem os passos. Dessa gente que se desliga e voa pra longe e presta atenção até na respiração mais pausada ou mais ofegante. Sou dessa gente que insiste por acreditar, desiste por acreditar, faz por acreditar. Preciso acreditar para seguir, vai ver isso é defeito de fabricação e nem tá mais na garantia pra troca. Mas às vezes duvido até de mim. Sou dessa gente que se afoga em poça d´água e atravessa oceanos a nado de peito aberto. Dessa gente que faz mergulho em apneia dentro de si, volta procurando oxigênio desesperadamente e mesmo assim fica feliz. Dessa gente que parece que não tem problema,mas só aprendeu a malandragem de não se descabelar diante de qualquer um, porque sabe que tem gente que é dessa gente que não tá nem aí pra gente. Sou dessa gente que dá risada de piada idiota, filosofa sobre a vida olhando pra bolha de sabão, tenta entender sobre o tudo, o nada, o vazio e a escuridão. Sou dessa gente que ganha o dia quando vê uma criança pulando pela rua e também quando ganha um sorriso banguela e sincero. Sou dessa gente que anda por aí. Sou dessa gente vizinha, amiga, colega de trabalho, mulher, homem, criança, alienígena, alemão ou samurai que anda pela nossa vida. Sou dessa gente, como qualquer um.

Foto: Thercles Silva


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

domingo, 12 de julho de 2015

nós

Nós e as impossibilidades. Nós e nossos poréns, senãos, quetais. Nós e o nunca. Nós e o não. Nós e as regras. Nós e a escolha natural. Nós e a segurança. Nós e a presença. Nós e a ausência. Nós e a saudade antecipada. Nós e o nunca. Nós e nossos olhos. Nós e nossos sorrisos. Nós e a vontade. Nós que nunca serão nossos. Nossos que nunca serão seus. Seus que nunca serão meus. Meus que nunca serão. Nós e o tarde demais.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

sexta-feira, 10 de julho de 2015

desistir



A verdade é que uma hora a gente desiste. Desiste, sim. Não porque quer. Dói desistir, na verdade. É uma dor tremenda quando a gente tem de se olhar e falar "pare de se enganar". Não é que a gente acorda um dia e fala "desisto", assim, como quem troca o café com leite pelo suco de laranja. O pão francês pelo integral. A manteiga pela margarina. É que tem uma hora que a gente para de ver coisa onde não tem, a se iludir com qualquer gesto. Deixa de pensar que talvez aquilo, aquela palavra ou resposta signifique algo mais. Significa, não. A verdade é que quando significa, a gente fica sabendo. Falado, assim, na lata. Ou de um jeito meio torto. Com um gesto. Mas fica sabendo. Todo o resto, é ilusão de quando a gente quer que exista o que não existe. É vontade que seja tudo o que não é nada. É coisa de quando a via é de mão única. Até que a gente se cansa de tentar chegar a algum lugar. De deixar tanta gente passar logo ali pertinho porque tá com a cabeça em outro lugar. De sorrir com o que nem faz sentido. Dói no começo, dá uma sensação meio esquisita de ter falhado...mais uma vez. Mas quer saber, desistir é coisa de gente corajosa, que não tem medo do que vai encontrar logo ali na esquina, nem de recomeçar. É coisa de quem acredita. É isso. Desistir é coisa de quem acredita até demais.

Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

Oi,



Pensou em escrever uma carta de despedida. Sentou diante do computador, desligou o celular, botou uma música, digitou três palavras, apagou, reescreveu. Começou pelo apelido, achou carinhoso demais pra uma carta de despedida. Digitou o nome inteiro, formal demais, nunca tinham se chamado assim. Querido? Não, soava falso. Começou com "Oi". Vírgula. Pensou em escrever como era ridículo ela escrever aquilo. Que não havia do que se despedir, porque falar tchau, adeus ou até logo. Ninguém se despede do quase. Mas ela andava com nós na garganta, sabia que precisava dizer ou morreria sufocada com tantas palavras e sentimentos guardados. Voltou. Oi. Vírgula. Por que eu estou fazendo isso? Ele vai responder o quê? "Sinto muito", "pena que tenha sido assim" ? Ela não queria saber de nada disso. Não do que já sabia. Ela queria que ele lesse e tivesse os olhos cheios de lágrima e pensasse nos dois com carinho e desistisse de ir embora. Que ele lesse e jogasse tudo para o alto, pegasse o telefone pra falar "estou passando na sua casa agora". Mas ela sabia que nada disso ia acontecer. Ele não sairia correndo, não pegaria o telefone, não pensaria nos dois com carinho, nem teria lágrimas nos olhos. Não pensaria como seria ruim não tê-la mais por perto. Desistiu, se sentiu ridícula. Fechou o computador. Saiu. Do outro lado da cidade, alguém com lágrimas nos olhos em frente à tela do computador começava. Oi. Vírgula.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

quinta-feira, 9 de julho de 2015

quando


A gente percebe, sente, se estranha de repente. Aí a cabeça, safada, vem sabotar. Começa a fazer perguntas que não interessam a ninguém. A querer respostas que não vão trazer soluções. Levantar dúvidas que não precisam de explicação. Criar distâncias lógicas e abissais para o que nem existe. A nos colocar em defesa contra a gente mesmo. A duvidar do que mexe lá no fundo. Aí a gente chama de carência, fraqueza, impressão, fogo de palha. Se desfaz daquilo que faz bem porque "vai ser melhor assim". Vai deixando de lado e jogando areia em cima por alguma razão oculta e muito profunda, que a gente nem entende. Mesmo quando a saudade bate no meio da tarde fria e você poderia falar com tantos outros mas não quer. Mesmo quando você tem vontade de contar seu dia, se está triste ou feliz, o que achou do livro, do filme, da viagem. Mesmo quando sente falta do sorriso, do cheiro, do abraço. Mesmo quando ninguém mais te interessa. Mesmo quando a vontade é sair correndo e falar tudo que está guardado. Mesmo quando a última pá de areia for, finalmente, jogada.

Trilha: É o que me Interessa - Lenine


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

quarta-feira, 8 de julho de 2015

passa



Teve dúvidas se ele realmente não percebia que todas aquelas palavras eram direcionadas a ele, para ele, com ele, sobre ele. Assim como uns tantos porcento dos seus pensamentos, de seus sonhos e planos. Assim como um sem número de vontades que ela nunca vai deixar claras o suficiente. Assim como uma infinidade de porquês que eles poderiam responder juntos. Assim como a vontade de ajudá-lo. De entendê-lo. Pensou em mandar tudo às favas, ao inferno, ao fim do mundo. A lugares próprios e impróprios. Mas decidiu apenas se esconder dentro de si, envergonhada. Porque ela sabe que uma hora isso passa. Sempre passa.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

terça-feira, 7 de julho de 2015

vem



Sabe, às vezes eu queria chegar do seu lado e falar vem mais perto, tenha medo não. Mas quem sou eu, senão a mais medrosa de todas as medrosas nesse negócio de ganhar e perder, perto e longe, amor e carinho?  Quer saber do que mais? Acho que virei uma bela de uma covarde nessas coisas de coração. Não é fácil falar isso, não. Justo eu, que sempre tive um tanto imenso de amor aqui dentro, passei a precisar do olhar que me diga "pode vir sem medo" ou paraliso, travo, fico onde estou. Não sei se é culpa das estrelas, do céu, do passado, presente ou futuro, mas a verdade é que às vezes eu tremo de medo de ter e perder de novo. Ou de não ter e perder. Ou de não ter mesmo. E de mentira. E de faltar confiança lá pelo meio do caminho. Aí vou levando a vida assim, dizendo que tá bom do jeito que tá, mesmo quando sinto uma falta danada de acordar com abraço bom. Vou me acostumando com o frio, mesmo sabendo que ele passa mais rápido quando a gente anda de mãos dadas pela vida com alguém. Vou enxergando beleza em outras e infinitas pequenezas que a gente vê por aí afora, e isso é bom. Vou encontrando carinho e amor de outras formas e jeitos, no tantão de gente que cruza os trajetos que a vida desenha pra nós. Sinto falta de conversas infinitas na madrugada, de realizar sonhos juntos, de me ver em outros olhos.  Vou sorrindo com os presentes que a vida me dá de surpresa e boa vontade desde que meu peito finalmente se aliviou. Vem, vida, vem mais perto, tenha medo não. Uma hora é essa covardia que fica com medo de nós.

Trilha: Come Here - Kath Bloom 


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 6 de julho de 2015

paralelos



São Paulo. 3 da tarde. Ela pensa em um mantra, uma música, uma oração, qualquer artifício que traga de volta alguma concentração e foco. Começa todos, não termina nenhum. Tenta respiração profunda. Na terceira, está suspirando. Resolve o tal do desconectar para reconectar. Levanta para tomar café, ele costuma ter poderes mágicos sobre ela. Em pé na cozinha, xícara na mão, a cabeça vai longe de vez. Volta no tempo, no espaço, na vida. Lembra do primeiro sorriso, do primeiro olhar, da primeira conversa. Pensa em por que temos essa mania de lembrar desses "primeiros" quando amamos alguém. Por que guardamos esses momentos como ouro, mesmo quando tudo não faz mais sentido. Não acha explicação. Dá mais um gole. Lembra da bebedeira, do abraço bom, do cheiro gostoso. Pensa em por que temos essa mania de nos separar mesmo quando amamos alguém. Por que somos obrigados a guardar um tanto de amor quando queremos dividir com quem nos faz todo sentido. Não acha explicação. O café está acabando, tem um monte de trabalho esperando. Pensa em mandar um oi sem compromisso. Pensa no que ele falou sobre não querer se envolver. Volta ao trabalho. Pensa  que talvez seja melhor esquecer. Coloca os fones de ouvido. Não pensa, manda um "oi". O coração se alivia. A tarde passa rápido. A razão perdeu mais uma vez.
São Paulo. 3 da tarde. Ele checa os e-mails pela terceira vez, olha o celular, entra no aplicativo-cardápio-de-gente, qualquer artifício que ajude a terminar o trabalho do dia meio parado. Não chega nenhum e-mail importante, não enxerga ninguém na tela. Tenta mirar a planilha com calma. Na terceira linha, não sabe nem o que está olhando. Dá uma olhada em volta, todos concentrados, ninguém pra puxar conversa. Vai até a cozinha tomar um chá pra aquecer o dia frio. A cabeça vai longe. Pensa na companhia boa, na conversa boa, na identificação desde sempre. Pensa em por que tinham se entendido tão bem e ele estava se esforçando para aquilo não fazer nenhum sentido. Não acha explicação. O chá fica pronto. Lembra dos jantares, do beijo bom, do cheiro gostoso e doce. Pensa em por que tinha essa mania de sentir medo quando as coisas estavam dando certo. Por que estava com aquele amor guardado lá dentro se já tinha achado com quem dividi-lo. Não acha explicação. O chá está acabando, tem uma planilha enorme esperando. Pensa em marcar um café sem compromisso. Pensa em como ela ficou triste com a última conversa na semana passada. Volta ao trabalho. Pensa que talvez seja melhor deixá-la ser feliz sem suas complicações. Coloca os fones de ouvido. O coração sorri. Não pensa, responde "preciso te ver". A tarde se aquece. A coragem dela o faz querer ainda mais.



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

domingo, 5 de julho de 2015

capaz


Ela  teria de ser capaz. Há tempos nem se tratava mais de querer. Ela apenas sabia que precisaria criar novos significados, construções e cores para o que já havia. Seria essa a única maneira de manter vivo o que a fazia tão bem e trazia tanta paz. Seria o único jeito de não se perder na densidade. De aceitar que tantas e infinitas vezes as coisas não são do jeito desejado e tudo ficaria bem. Ela, que queria ter o poder de se comunicar por telepatia. De mudar tudo com o coração. Que sempre pedia para o tempo passar mais devagar e a noite ser infinita. Que apagava diferenças e distâncias, mesmo sabendo de sua profundidade. Que sabia que jamais conseguiria atravessá-las. Que daria o mundo por um minuto nos seus sonhos. Que queria mais algumas horas e vidas de conversa. Ela, que se via incapaz de expulsar tudo que estava dentro sem sentir alguma dor. Ela, que precisaria ter coragem. Ela teria de ser capaz. Mas ainda não era.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

irmãs



Ela só quer ser tranquila, calma e bem-resolvida. Vive no aconchego do conforto do abraço demorado. Sobrevive de momentos singelos e quase imperceptíveis a olho nu. Mora no sorriso sincero, na pergunta infantil, no filme que nos toca lá no fundo, no livro bom que a gente lê em silêncio, na música que nos traz boas lembranças, na xícara de café quente no dia frio, no copo de suco fresco no dia abafado. Mas a Felicidade às vezes vai embora cabisbaixa, enquanto estamos ocupados demais correndo atrás da sua irmã Euforia. Essa é diferente. Expansiva, fala alto, cheia de exclamações, caras e bocas, letras em excesso, barulho demais, faz questão de ser notada, é quase incômoda. E ela às vezes também vai embora cabisbaixa, quando descobre que a Felicidade sem ela continua sendo a Felicidade, mas ela sem a Felicidade não passa de um puído disfarce para os momentos em que falta alma na vida.




Amor e verdade sempre!
Telma De Luca