terça-feira, 29 de setembro de 2015

pensamento


O pensamento é o que nos leva para longe, para onde queremos estar quando a realidade é a distância.  Quando sentimos saudade, é ele que nos transporta até quem queremos mais perto, seja em memórias ou infinitas vontades e planos futuros. Quando a gente pensa, idealiza, imagina conversas, relembra o que faz bem.O pensamento nos salva, nos revitaliza, nos encaminha, nos leva aos sentimentos. Pobre daqueles que demonizam o pensamento, imaginando se tratar de um inimigo das emoções. Pensamento é ponte, ligação, conexão, caminho até o que sentimos de mais lindo e profundo. Voe longe, pensamento. Voe longe, às vezes você é a única maneira de estarmos perto.

Amor e verdade sempre!
Telma

domingo, 27 de setembro de 2015

cosme e damião

Dia de adoçar os pequenos e fazer parte de sorrisos, ainda que eles sejam breves. Ainda que não curem uma vida toda, hão de salvar algumas horas do dia. Somos gotas que se multiplicam no fazer o bem.
Menos ego, mais amor. 

Viva Cosme e Damião!!



update: a entrega foi simples, mas linda! Ver aqueles pequenos abrindo seus sorrisos de alegria e saírem saltitando e comentando "nosssa, quaaantos docesss"....não tem preço! Ano que vem, quero fazer mais saquinhos!!!


Amor e verdade sempre!
Telma

sábado, 26 de setembro de 2015

janelas

 

Ela olhou pela janela, viu o dia cinzento e chuvoso e agradeceu pelo alívio do calor dos últimos dias. Espreguiçou-se mais uma vez bem devagar, resolveu ficar mais um pouco na cama, quando a memória do sonho que teve durante a noite a pegou de repente. Definitivamente, tinha sido um sonho esquisito. Não ruim ou assustador, mas uma confirmação absurdamente clara da sua intuição, o que a deixou pensativa por uns instantes. Ouviu o sinal do celular, viu na tela a mensagem matinal que a deixava feliz como quê. Sorriu. A intuição e o amor lhe faziam bem. Agradeceu mais uma vez. A vida estava ensolarada, e só isso importava.

Amor e verdade sempre!
Telma

futuros


Preciso trabalhar. Abriu a planilha, viu os números infindáveis, buscou coerência entre eles. Tenho que entregar esse relatório até meio-dia. A concentração ia longe. Levantou para tomar água, ar, achar o raciocínio. Negociou consigo mesma, volte, termine seu trabalho, fala pouco, o prazo está no fim. Pensou nas mãos, nos olhos, no sorriso. Números, fórmulas, relação. Lembrou das palavras. Aquilo era tão mais importante. As palavras eram tão mais importantes. Respire, meia hora e você dá conta. Precisa dessa grana, não pode se dar ao luxo. Visitou os olhos negros e curiosos mais uma vez. Pensou em ligar, em mandar um oi. Vamos, só mais um pouco de concentração. A soma não batia, as contas não fechavam. O que estava errado? Por que seria errado? Por que achava tudo tão errado? Refaça, comece de novo, estava tudo indo bem. Calma, vai dar tudo certo. Você sabe que vai. Ligou o rádio pra ver se o pensamento pensava em outra coisa e os números faziam sentido. Não se afobe, não. Que nada é pra já. O amor não tem pressa. Ele pode esperar em silêncio. Voltou ao trabalho. Agradeceu aos deuses dos amantes meio loucos. Saiu pra tomar um sorvete. Parou no café. O coração aliviado ainda precisava de calor. 


Arte: Edward Hopper 
Amor e verdade sempre!


sexta-feira, 25 de setembro de 2015

ficar

 


Tem quem ache que ele acontece quando existe um sem-fim de semelhanças. Tem quem pense que é quando as diferenças são mais interessantes. Tem quem diga que foi à primeira vista. Outros contam que foi depois de anos de convivência. Há ainda os que nunca sentiram de verdade. E os que vivem de sentir e sentir e sentir e, no fundo, não sentir. Tem um tipo que se chama amizade. Tem o incondicional. Tem o eterno. O efêmero. O profundo. O equivocado. Tem o que a gente acha que é, mas não é. Tem quem não valoriza o que recebe. Tem horas que a gente enxerga onde não tem. Tem horas que não vê o que está do nosso lado. E tem horas que a gente sente sem mais o quê. (Sempre) é bom quando chega, (sempre) dói quando acaba, mas o melhor, melhor mesmo, é quando ele fica. É quando ele fica, amor.

Arte: Amanda Cass


Amor e verdade sempre!

Telma De Luca

tem amor



Tem amor que nos tira da casca, do sério, do rumo, da certeza e nos põe só no rumo da alegria, do sorriso e do êxtase. Tem amor que é certeza, chega calmo, manso, pé ante pé no corredor à meia-luz, se aconchega no sofá do sala, na mão dada no cinema, no abraço na noite da fria. Tem amor que nunca acontece, cresce nas possibilidades, se fortalece na imaginação e morre sem ter vivido. Tem amor que nasce, cresce e se embeleza com a maturidade. Tem amor que mal nasce e busca outros rumos pelos céus alaranjados do nascer do sol. Tem amor que nasce, cresce e, apesar de todos os esforços, não toma corpo e "sustância" para sobreviver por mais. Tem amor que faz as madrugadas ganharem cor. Tem amor que torna as manhãs ativas e saudáveis. Tem amor que se entende na mesa do bar. Tem amor que divide a xícara de café. Tem amor que compartilha o pacote de jujubas de adolescentes eternos. Tem amor que é bom. Tem amor que é ótimo. Tem amor que é sublime. Tem amor que é supremo. Tem amor que demora a se encontrar. Tem amor que dá asas, pés e caminhos. Tem amor que brilha os olhos. Tem amor que brilha o corpo. E tem o nosso. Amor, e tem o nosso.


Amor e verdade sempre!
Telma

all



Quanto mais o mundo fica cheio de "eus" , mais só consigo acreditar no amor e no respeito como cura e solução para todos os males. Insistem tanto que devemos ser os "atores principais", que o mundo está virando um diálogo de surdos, cada um preocupado em ter a fala mais importante da peça, o "grand finale" nas mãos, todos os aplausos e "bravo!". Conduzimos e somos conduzidos o tempo todo, tolo de quem acha que tem controle total sobre a vida. 
Menos eu, mais amor, sempre!!


Amor e verdade sempre!
Telma

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

sonhadora

 


Ela é apenas uma daquelas pessoas que sonham por aí. Daquele tipo que sente os olhos marejarem nos instantes mais variados. Dizem que desde que se conhece por gente, fica com os olhos cheios d'água quando brinca com crianças, vai entender. Dizem que é assim até hoje. Outro dia, no supermercado, a viram emocionada, assim, do nada. Tem gente que diz que é fragilidade. Falta de vergonha. Pura defesa. Ou vai ver é só um jeito de ser que a faz um pouco mais humana mesmo.
Ela sonha por aí. Às vezes pinta as cores de um mundo melhor. Pensa na vida com amor e dedicação porque foi o único jeito que aprendeu. Tenta imaginar o futuro mais justo e verdadeiro porque são as coisas que ela acha que andam faltando aos montes por aí. Tem uma mania esquisita e quase ingênua de achar que uma hora tudo vai dar certo, seja do jeito que for. Ela sonha por aí. Mesmo naqueles momentos em que as nuvens acinzentam o céu feito prenúncio de tempestade brava. Corre para a janela, agradece por estar em um lugar seguro, aprecia a beleza da força da água. Desde há pouco, achou por bem pedir que as coisas se encaminhem da melhor maneira que a vida achar que lhe cabe.
Dos sonhos da noite, esquece quase todos. Mas outro dia teve um lindo e bom e demorou a levantar só pra esticar um pouco o bem que ele trouxe. Fez manha pra si mesma, pedindo aos céus para que aquele se tornasse um sonho real logo ali adiante. Dizem que ela sonha muito por aí. Às vezes espalha um pouco de si, às vezes se recolhe na casa de caramujo. Às vezes sente as lágrimas escorrerem fortes e densas pelo rosto e respira bem, bem fundo procurando alívio. Às vezes vê seus sonhos dando adeus e se sente impotente. Mas ela segue e sonha por aí. Ela é apenas mais uma daquelas pessoas que sonham por aí.

Amor e verdade sempre!
Telma

quarta-feira, 23 de setembro de 2015

divertida mente

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Definitivamente não é um filme para crianças. Pelo menos, não é um filme "só" para crianças. Sei que minha opinião é levemente distorcida, porque adoro filmes de animação e os da Pixar têm um lugar especial no coraçãozinho dessa geminiana aérea e sonhadora aqui, mas....Divertida Mente  (Inside Out, 2015) é um baita filme para qualquer um.
Muito resumidamente, as protagonistas do filme são as emoções da pequena Riley, que ganham formas e cores e interagem entre si (o título em inglês, algo como "de dentro para fora" é bem mais explicativo em relação a isso). A Raiva, a Tristeza, o Nojinho, a Alegria e o Medo são muito bem caracterizados, tanto em relação às expressões como em relação às cores. Aliás, é interessante notar que a Alegria tem os cabelinhos azuis, a mesma cor da Tristeza. 
 O que eu achei mais interessante e corajoso desse filme foi que ele deu valor e voz à tristeza, em um mundo onde a felicidade é supervalorizada. Vivemos em uma época em que felicidade constante é praticamente sinônimo de ser bem-sucedido, um dos motivos pelo quais um filme que mostra para as crianças a tristeza como emoção absolutamente normal e útil para nossa saúde mental, merece atenção e aplausos. Muito se fala da importância do medo como protetor, da raiva como catalisadora, da alegria como objetivo de vida, mas muito pouco se valoriza os momentos de tristeza, que normalmente são tratados como episódios a serem rapidamente ultrapassados, tanto interna quanto externamente (porque não basta ser feliz, tem que aparentar também). Se pensarmos bem, costumamos associar "equilíbrio" e "bem-estar" ao prazer e a um estado tranquilo e feliz, àquele momento em que tudo parece estar caminhando perfeitamente bem na nossa vida. Porém, eu penso que só atingimos algum grau de equilíbrio quando conseguimos passar por diferentes sentimentos e emoções com certa flexibilidade. Quando conseguimos entender que existe momento de chorar, de sorrir, de se valorizar, de admitir falhas, e entender que todos, sem exceção, são passageiros. Eu acredito que atingimos o verdadeiro equilíbrio quando somos capazes de nos render às próprias emoções, conscientemente. Quando chega o momento em que baixamos nossas armas internas fabricadas ao longo da vida e nos permitimos a vivência plena. Quando não há preocupação com o que "os outros vão pensar", nem obrigação de seguir adiante no momento em que esperam isso de nós, mas sim quando nos sentimos realmente prontos. 
Não sei se as grandes dores nos levam a algum grau maior de equilíbrio e consciência. Ou se são nossas pequenas tristezas cotidianas e humanas, como bem mostra o filme. Fato é que somos um conjunto e negar ou menosprezar qualquer das emoções nos empobrece enormemente. O acolhimento das nossas emoções é o que nos salva. E o acolhimento das emoções alheias é o que há de salvar o mundo um dia.

Amor e verdade sempre!
Telma

curriculum?

abstract canvas art


Seja de manso ou avassalador. Pé ante pé ou com o pé na porta. Inseguro ou cheio de si. Tímido ou extrovertido. Com sorrisos ou cara fechada. Lindo ou nem tanto. Viajado ou não. Cheio de histórias para contar ou cheio de histórias para escrever. Trazendo muita bagagem ou ainda fazendo as malas. A gente não se apaixona pela pessoa pronta, pelo curriculum que ela nos entrega nas mãos. Olha, eu sou isso aqui, me aceita para a vaga?
A gente se apaixona é pelo som das palavras, mesmo que elas sejam tontas. A gente se apaixona é pelo brilho dos olhos de quem ainda sonha. A gente se apaixona pelo sorriso sem-graça que chega no meio da conversa entre dois estranhos. Pelo silêncio de quem está buscando uma pergunta espirituosa para quebrar o gelo. Pelo olhar bobo de quem está ainda meio perdido por ali. A gente se apaixona pela quentura da mão. Pelas infinitas e lindas possibilidades que existem para aqueles dois corações juntos. Seria fácil pegar curriculum, cadastrar no banco de dados reserva, acessar quando desse vontade e pum! relacionamento feliz formado. Mas o amor é imponderável, é vontade de conversar mais, de saber mais, de construir juntos, de criar novos sonhos, é tanta coisa que a gente nunca sabe direito o que é. Amor é cavar o caminho a quatro mãos, é replantar o jardim, é cuidar da grama e das árvores com a mesma boa vontade. Amor é repintar a casa quantas vezes forem necessárias. É consertar o telhado quando vem a chuva forte. É botar no colo quando a dor do outro chegar. É não ter vergonha da fragilidade que nos toma de assalto tantas e infinitas vezes no meio da noite, do dia, da tarde fria. É ser verdadeiro, leal e honesto com quem a gente ama. É ter ciúme mesmo não sendo ciumento. É redesenhar sonhos, planos e vontades todos e todos e todos os dias.
A gente não rasga nossa vida anterior quando volta a amar, quando se dispõe a botar o pé na estrada de mãos dadas de novo. Tudo o que somos está ali, latente, em cada gesto, em cada palavra, em cada lembrança, em cada música. Mas achar que tem um curriculum irrecusável nas mãos é coisa de quem vê o amor como negócio de troca simples e banal, resultado de fórmulas matemáticas, algoritmos, checklists. De quem vê relacionamentos como relações de poder. Ou as pessoas amadas como objetos utilitários. É coisa de quem desistiu de sonhar, de crescer, de aprender, de acreditar. Eu valorizo infinitamente mais um freelancer apaixonado pelo que faz do que um contratado que só sabe esperar pelo salário no final do mês. A vida é mais feliz assim.



Amor e verdade sempre!
Telma

viva!


Compasso. De espera. De chegada. De partida. Descompasso. De coração. De razão. De saberes. Dança. A um. A dois. À vida. Devaneio. Pés nas nuvens. Pés no chão. Pé na estrada. Passos. Largos. Lentos. Infinitos. Caminho. Em frente. Em pausa. Mãos dadas. Paro. Sigo. Penso. Sinto. Danço. Perco. Ganho. Subo. Desço. Abraço. Beijo. Vivo. Viva!




Amor e verdade sempre!
Telma

terça-feira, 22 de setembro de 2015

um qualquer



Sou dessa gente que anda por aí achando que o mundo é um lugar complicado, esquisito e bom de viver. Que duvida, acredita, pergunta e responde sem ter muita certeza, mas acha que tem certezas inabaláveis e inquestionáveis. Sou dessa gente que anda rápido quando o dia tá lento, devagar quando o dia tá apressado ou que nem repara como está o dia e nem os passos. Dessa gente que se desliga e voa pra longe e presta atenção até na respiração mais pausada ou mais ofegante. Sou dessa gente que insiste por acreditar, desiste por acreditar, faz por acreditar. Preciso acreditar para seguir, vai ver isso é defeito de fabricação e nem tá mais na garantia pra troca. Mas às vezes duvido até de mim. Sou dessa gente que se afoga em poça d´água e atravessa oceanos a nado de peito aberto. Dessa gente que faz mergulho em apneia dentro de si, volta procurando oxigênio desesperadamente e mesmo assim fica feliz. Dessa gente que parece que não tem problema,mas só aprendeu a malandragem de não se descabelar diante de qualquer um, porque sabe que tem gente que é dessa gente que não tá nem aí pra gente. Sou dessa gente que dá risada de piada idiota, filosofa sobre a vida olhando pra bolha de sabão, tenta entender sobre o tudo, o nada, o vazio e a escuridão. Sou dessa gente que ganha o dia quando vê uma criança pulando pela rua e também quando ganha um sorriso banguela e sincero. Sou dessa gente que anda por aí. Sou dessa gente vizinha, amiga, colega, mulher, homem, criança, alienígena, alemão ou samurai que anda pela nossa vida. Sou dessa gente, como qualquer um.

Foto: Thercles Silva



Amor e verdade sempre!

Telma

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

entre livros


Precisava fazer alguma coisa. Não será difícil, tem tanta gente interessante no mundo, pensou enquanto retocava o batom e ajeitava o cabelo antes de sair para a livraria, seu lugar preferido do bairro, onde passava horas em devaneios literários. Sentou na cadeira de sempre, cumprimentou o atendente solícito de sempre, pegou um livro qualquer e começou a olhar ao redor. Vai ser fácil puxar conversa com aquele ali, já li o livro que ele tem nas mãos e adorei. Esperou um pouco, aproximou-se, falou sobre o tempo, como a livraria está cheia não, elogiou o livro. Ele contou que era divorciado, estava de passagem pela cidade para visitar o filho pequeno, vamos tomar um café, tem um aqui perto, não? Ela se desculpou, disse que já estava de saída. Esperou o moço sair e voltou para o seu posto de observação, a boa e velha cadeira companheira de tantas tardes. O atendente passou, perguntou se ela queria outro livro, alguma indicação. Mas ela estava focada no objetivo. Ele estranhou, ela estava diferente. Ela mirou do outro lado, na prateleira de livros jurídicos. Gostava de caras grisalhos, aquele parece um advogado experiente e é tão charmoso. Não entendia nada sobre o assunto, inventou que estava procurando um livro para um amigo, bateu o olho em um código qualquer e falou é esse. A conversa se estendeu por uns minutos, ele quis saber o que ela fazia. Ela falou que gostava de artes, era  freelancer. Ela se esforçava para achar interessante o papo sem emoção e cheios de palavras difíceis, até que não aguentou e soltou um sonoro bocejo. Desculpe, tenho trabalhado muito, preciso ir. Ainda esperou mais uns minutos, deu uma olhada, viu um cara magrinho com fone de ouvido, um executivo procurando livros para os filhos ou sobrinhos, uma mulher comprando livros para colorir seu stress. Resolveu tomar um café. O atendente a chamou, ei, não vai levar nada hoje? Não, hoje não. Ele conhecia todos os hábitos dela, é meu horário de descanso, posso tomar café com você? Notei que estava estranha hoje, aconteceu alguma coisa? Nada, acho que estou cansada, muito trabalho. E procurar amor também dá trabalho. Como assim, procurar amor? Olha só, vim aqui hoje, disposta a encontrar o grande amor da minha vida, você mesmo sempre me diz que sou muito exigente. Um era divorciado, outro chato, outro...ele interrompeu. Tem certeza de que você está procurando um amor? Uma conversa de cinco minutos e você já sabe se é amor ou não? Faça-me um favor, isso chega a ser ridículo. Você está sendo grosso! Você sai com uma lista na cabeça do que quer encontrar. Um cara da idade tal, da profissão tal, que goste de tal e tal, e vem me falar que está procurando um amor? Você está procurando alguém pra ocupar um cargo! Namorado oficial da Fulana de Tal! Ela pensou em gritar esbravejar, xingar. Olhava para aquela expressão meio descompensada, quem ele pensa que é para falar assim comigo, não sabe nada da vida esse moleque...mas só conseguia prestar atenção no jeito dele, no cabelo bonito que nunca havia reparado, na voz, nas palavras tão maduras pra alguém tão jovem, nos olhos que brilhavam mais que o quê. Ei, você não está nem me ouvindo! Quer saber, já me cansei disso. Todos os dias você vem aqui, a gente conversa horas sobre a vida, os livros, e no final você me trata como se eu fosse mais uma das prateleiras ou uma máquina de informações. E, ainda assim, eu só consigo prestar atenção no seu sorriso, nas histórias  que você me conta, no jeito que você fecha os olhos quando fica com vergonha, como você toma café segurando a xícara com as duas mãos. Ela ficou confusa. Nunca havia reparado nele, não daquele jeito. Lembrou das tardes de longas conversas, de como se entendiam e se divertiam juntos, como tudo fluía bem. Mas ele era o atendente solícito da livraria perto de casa, só isso. E era tão novo! Tenho que voltar para o trabalho. Eu também. Que horas você sai hoje? Às dez. Podemos sair pra jantar? Ué, mas você não vai sair pra procurar o grande amor da sua vida? Ela sorriu de olhos fechados, do jeito que ele conhecia tão bem.


Amor e verdade sempre!
Telma

domingo, 20 de setembro de 2015

a moça e o frio

 





Sentou no café de sempre para ler, pensar na vida, o que fosse capaz de deixá-la aliviada da ansiedade. O pensamento ia longe, ela olhava para os lados e via pessoas mudas conversando entre si, não conseguia parar o ouvido em nenhuma conversa alheia, como gostava (deseducadamente) de fazer. Os pensamentos passavam voando feito borboletas, asas de beija-flor, joaninhas afobadas e irritantes. Milhares deles em revoada na sua cabeça, no peito, no coração. Não era o voo livre e desimpedido, era o voo meio sem jeito e sem rumo de quem procura caminho claro e nem sempre encontra, podia senti-los se debater dentro de si. Não que a sensação fosse de todo ruim, mas trazia um desassossego vital, alguma inquietação maior e sobre a qual ela não tinha o menor controle. Os goles de café a faziam esquecer do frio lá fora, mas nada matava aquele frio lá dentro. Não que fosse triste, exatamente. Não era. Em boa parte do tempo, era a mais resoluta e firme otimista que alguém poderia conhecer, sempre crente no trabalho duro e na sorte como solução de todos os problemas do mundo. Sempre pronta a estender as mãos, os ouvidos e os braços por quem quer que fosse. Sabia o poder de um sorriso nascido das entranhas. Sabia que a gargalhada já a havia tirado de buracos profundos. Sabia que as palavras podiam salvar uma vida, uma tarde ou um amor meio desacreditado. Mas tinha esse pessimismo que às vezes fazia morada, trazendo mala e cuia e pretensão de permanecer por longos tempos na sua casa. A desconfiança eterna, sua maior luta e sua maior proteção. O frio capaz de congelar projetos, vontades e desejos. As lutas constantes e inevitáveis que a faziam humana. Os embates solitários que acabavam por fortalecer a eterna menina que vivia dentro dela comendo balas coloridas e sorrindo. Tinha esse medo que a paralisava em tantos momentos. Tinha um olhar que se perdia em sonhos tantas vezes. A leitura que a acalmava e fazia a imaginação mais viva. Desde pequena, era assim que se conectava a si mesma, ao seu dentro, ao seu mundo. O livro estava quase no final quando viu a frase que lhe valeu: "as aranhas só tecem em dias nublados".  Se deu conta de que o frio que se instalava de quando em vez, a seu jeito, a tinha feito caminhar em muitos momentos, só de teimosia pra não deixar o coração congelar. Muitos de seus dias nublados a tinham levado adiante, feito sua vontade renascer tantas vezes. Se deu conta de que sempre haverá de ter alguém para entender seus dias de frio e se alegrar com seus (muito mais numerosos) dias de calor. O café espanta o frio que vem lá de fora. E esse outro que às vezes aparece aqui e ali ela prefere acolher, simples e serenamente.



Amor e verdade sempre!
Telma

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

sagaz




Tem dias em que a gente pensa sobre gratidão e raiva. Amor e saudade. Dor e renascimento. Paz e guerra. Tem dias em que todos os sentimentos se misturam se combinam e se despedem, tudo assim, ao mesmo tempo e nunca. Aqui e agora. Nunca e pra sempre. Tem dias em que a nuvem vem, encobre o dia bonito, mas, teimosa que sou, escolho olhar para a nuvem. Tem dias em que o sol vem quente e apaziguador e eu escolho apenas sentir seu calor. Tem dias em que vem a chuva forte e nesses, ah, eu escolho sentir o cheiro da terra. E tem uns dias que não tem jeito. Cinzas, azuis, úmidos ou secos, quentes ou frios e eu só quero meu casulo. O céu está lá e eu não vejo, a nuvem está lá e eu nem reparo, o sol esquenta e eu quase nem sinto, alguém passa e eu lá quero saber quem é. Se a vida fosse linear, seria muito chata. Se fosse o tempo todo circular, retornaríamos sempre ao mesmo lugar. A vida é sábia, é esperta, é sagaz, é serena. Mas nem sempre a gente percebe, perdidos atrás de infinitos disfarces ou correndo atrás de euforias eternas.


Amor e verdade sempre!
Telma

saudade

 



Saudade dá sem hora, sem tempo, sem avisar. No sorriso de saudade boa, na lágrima de saudade dolorida, de suspiro pelo que quase foi e se perdeu na estrada. 
Dá sem hora porque mora dentro da gente. Vai fazendo casinhas coloridas com janela e chaminé e uma árvore desproporcionalmente grande ao lado e que a gente visita feliz. Ou uns apartamentos meio úmidos e mal iluminados que a gente quase nem visita mais e vão ficando abandonados. Mas nossas construções estão lá, com lugares, pessoas, cheiros e sons insuspeitos morando. Às vezes servem de esconderijo, às vezes de refúgio, às vezes somos sequestrados até elas.
Cheiro de caderno novo no primeiro dia de aula dá saudade. Cheiro de noites de infância na praia, de alecrim, manjericão, erva-cidreira e mexerica. Cheiro de laranja depois do almoço. Cheiro de criança pequena parece que dá saudade da gente mesmo quando nem sabia que era gente. Música dá saudade. Filme, livro, sorvete, perfume. Até assovio dá saudade. Trovão, barulho de chuva na janela, cheiro de terra molhada. Sol pegando na pele, mergulhar no mar. Até o que a gente não viveu dá saudade da gente como a gente queria que a gente fosse. De bom, de ruim, de sorriso, de lágrima, de melancolia, a vida é uma grande saudade em eterna construção.


Amor e verdade sempre! 
Telma

Arte: Amanda Cass 

heróis

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Quando a gente é criança, quer ser super-herói para salvar os outros de todos os perigos mais perigosos do mundo todo de todos os planetas do Sistema Solar. Daí a gente cresce, descobre milhares de outras profissões (além da de super-herói, é claro) e começa a rabiscar planos, sonhos, metas. Tristemente menos ambiciosos do que salvar o mundo. No guardanapo do bar, no bloquinho, na tela do celular. Rabiscos, esboços, desenhos, plantas baixas dos nossos projetos de vida. Até perceber que quando a gente olha só pra eles, se esquece de pensar o que é sucesso ou fracasso pra nossa alma. O que é realização ou pura sobrevivência. De sentir o que é sorriso lá do fundo ou mero mostrar de dentes. De pensar quando a ambição vira qualidade ou defeito. De perceber que amor pode nascer na alma ou dentro do peito. De notar que o pássaro canta de alegria e de sofrimento. Que o bebê ri de alegria ou puro medo. Que amizade pode ser identificação, afinidade ou profundo encontro de almas. A gente pensa, sente, percebe, até ter coragem de apagar rabiscos, sonhos e metas sem sentido e começar a redesenhar algo que nos traga de volta à cor. Na página já meio gasta de tanto passar a borracha e mesmo com a sombra do desenho antigo sempre aparecendo, a gente recomeça. Com mãos de criança pegando o lápis pela primeira vez, a gente sempre recomeça.

Amor e verdade sempre!

Telma

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

fodões

Pintura surreal - Jacek Jerko


Era uma vez um reino não tão distante conhecido como O Mundo dos Fodões. Ali, as pessoas eram sempre superiores a todas as outras, o que levava a um certo grau de loucura coletiva, já que "bom" eram sempre "eu" e "ruim" sempre os outros. Não percebiam que esses papeis eram alternados ao longo de toda a pobre existência, às vezes o eu era o outro e o outro era eu. Mas não importava. Não existia gente que assumisse ignorância no assunto que fosse, não pegava bem, diziam que algum rei mandava matar quem falasse "não sei", "não conheço", "nunca vi".
Profissionalmente, cada um era o "mais fodão de todos os fodões". Não interessava o grau de experiência, de estudo, de conhecimento, de nada, pelos escritórios e fábricas só se viam fodões caminhando e falando mal dos demais, todos burros, incompetentes e infinitamente inferiores. As rodas trocavam de personagens, mas ali, naquele momento da reunião dos fodões, todos os nomes que saíam das bocas eram menos do que eles. Menos fodões, menos inteligentes, menos bonitos, culpados por todos os erros. E nos relacionamentos, então? Fodões, muito fodões. Bem resolvidos, todos eles. Não havia tristeza, drama, choro, ciúme. Credo, que bobeira. Ai, se fosse comigo! Depressão? Nossa, sempre te achei meio fraco mesmo...não sai dessa porque não quer, não se esforça, não é feliz full time como eu...que babaca! Ai se fosse comigo!
E filhos? Nossa, os filhos eram os mais fodões de todos os fodões do sistema interplanetário. Olha só, como ele arrota mais afinado, caga mais cheiroso e mija num tom de amarelo mais bonito, viu não? Meu filho é o mais foda, ouviu, o mais foda de todos os fodões, vai espalhar meus genes fodões por aí! Fodice garantida por mais uma geração...yeah!
As músicas que eles ouviam eram as mais cool, os livros eram os mais cultos, a posição política muito superior e embasada, e os argumentos então? Nossa, todos fodas demais, mesmo quando repetidos da boca de algum outro fodão. Porque aí a fodice duplicava, né não?  As ideias, mesmo quando roubadas de alguém na reunião anterior, eram as mais mais mais...fodas, claro! Os narizes empinados não deixavam dúvidas: aquele era um autêntico fodão, de gerações, família tradicional, com referências!
Empinaram tanto o nariz que esqueceram de olhar pros outros mundos que existiam ali, bem debaixo do olhar distorcido deles. Esqueceram de enxergar cada universo particular, dores, alegrias, histórias, momentos, dificuldades. Esqueceram de ouvir o que o outro tem pra falar, com todas as suas frases começadas com "eu". Uma grande conversa de surdos tomava conta das ruas, diálogo verdadeiro tinha virado artigo de luxo. Eu faço, eu sou, eu sei, eu tenho. Por puro esforço, alguns conseguiram se afastar e um pouco à distância começaram a ver como aquele era o Incrível Mundo dos Ridículos. Dos profissionais burramente arrogantes. Dos relacionamentos de disputa tosca. Da autovalorização vazia aprendida em livros de autoajuda de 15,99. Da mentira como capa de herói.
Começaram a buscar outros caminhos, outros mundos, outros eus para compartilhar suas descobertas. Já haviam decidido, se não encontrassem, iriam criar do zero o Incrível Mundo das Pessoas Imperfeitas, que Sentem Medo, Frio, Fome, Alegria e uma Infinidade de Outras Coisas, cada uma a sua hora. Talvez o chamassem apenas de MEA, Mundo dos Eternos Aprendizes...ou mudassem de ideia no meio da caminho, vai saber. O importante era se afastar do Mundo dos Fodões, o cheiro de metano estava ficando insuportável.



Amor e verdade sempre!
Telma

Arte: Jacek Jerko

doses

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Inaugurou mais uma farmácia ali na esquina. Na sua esquina, na minha, na esquina de casa, do trabalho, abriu mais uma farmácia. Grande, iluminada, aberta 24 horas. Ah, as maravilhas da sociedade moderna...mais gente doente, mais gente sem dormir, mais gente tomando anti-depressivos, mais gente trabalhando gripada, com febre e se achando muito competente por causa disso (até comercial falando isso tem, pode prestar atenção). Não coma glúten, nem lactose, nem açúcar, nem ovo, mas não se preocupe demais com sua auto-imagem, afinal, não somos reféns do que essa sociedade quer nos impor, não é mesmo? Emagreça para o verão. Mesmo que você não queira e nem precise, emagreça. Aliás, como assim, você não quer? Nossa, mas que absurdo essa modelo ser tão preocupada com o corpo, não? Se tirar o glúten, a lactose, o ovo e o açúcar não resolver, tome esse remedinho, minha amiga tomou e perdeu 15 quilos em 20 dias, é milagroso. Vamos, tome. Não consegue dormir direito, está preocupado com prazos, problemas e família? Tome esse remedinho, não vai fazer mal, umas gotinhas e você dorme tranquilo, tranquilo. Vamos, tome. Vamos, se é para sentir, que seja só amor e felicidade. O que  doer, anestesia. Não se alimenta direito? Tirou o glúten, a lactose, o ovo e o açúcar e ficou desnutrido? Não tem problema, tome cápsulas de multi-vitamínicos, de a a z em cinco línguas, e seu problema está resolvido. Vamos, tome. Sim, os remédios avançaram, tem muita gente que realmente precisa deles e das restrições para viver melhor, mas será que não estamos exagerando na dose de aditivos artificiais para uma vida mecânica e sem falhas? No tempo desse texto inaugurou mais uma....opa, será que lá vende o que eu tô precisando?

Amor e verdade sempre!
Telma

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

breve





Ela estava deitada olhando a lua, quando ouviu :

- Não consigo mais imaginar a minha vida sem você.

A declaração a pegou de surpresa. Eles tinham dias divertidos e noites intensas, mas ela não imaginava que tudo estava caminhando assim tão rápido. Lembrou do dia em que se conheceram, da conversa fácil e despretensiosa, dos muitos pontos em comum, das infinitas diferenças. Das coincidências incríveis, das distâncias abissais entre os mundos. E de como tudo aquilo era interessante, intenso, leve. Os dois sabiam que se queriam desde o minuto em que se olharam. Não fizeram promessas, não tatuaram seus nomes, não furaram o dedo pra fazer pacto de sangue, não fizeram aliança de anel de refrigerante. Conversaram no dia seguinte sem esperar de quem seria o primeiro passo, essas formalidades eram pequenas demais para eles. Apenas se queriam bem, se queriam perto. Por que ele tinha de falar isso agora? Fazia tão pouco tempo!
Lembrou da primeira viagem, do primeiro de muitos carnavais longe do carnaval, do primeiro inverno, do primeiro filme juntos, do segundo, dos infinitos filmes com o mundo todo lá fora. Por que tão rápido? Lembrou do primeiro casamento, dos acessos de riso no meio das festas de família, dos olhares cúmplices que os salvavam nas reuniões chatas. Do primeiro choro, do primeiro batizado, do primeiro aniversário. Lembrou dos sorrisos que trocavam quando se viam todas as manhãs. 

Levantou da cama em um pulo.

- Vamos, estão nos esperando, precisamos nos apressar! Não podemos chegar tarde. Nossos filhos organizaram essa festa com muito carinho, tem um monte de convidados lá fora, nossos netos já já ficam impacientes! Aliás, esqueci de dizer...eu fiz um pedido a eles.

- É mesmo? Qual?

- Que chamassem nossa festa de Bodas de Amor. Você sabe....a felicidade se assusta com essa coisa de contar calendários!

Ele sorriu. Sabia bem como os olhos curiosos e vivos dela desejavam que o tempo fosse breve para sempre. E que ela também não imaginava mais a vida sem ele.




Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

Arte: Emma Biachini

avessos


Nas horas mais inesperadas, o cheiro do bolo, do perfume, da dama da noite ou da praia. A música, o silêncio, a palavra. A lágrima que segurou por orgulho, proteção ou porque não foi capaz de deixar rolar solta pelo seu caminho de dor e alívio. A lágrima que molhou seu rosto por horas, dias, meses ou anos, até secar por pura força da vida. O sorriso que não conseguiu retribuir. A gargalhada gostosa que fez a barriga doer e os olhos ficarem molhados de tanta alegria. O beijo que fez esquecer da hora, da vida, do mundo lá fora, mesmo no meio da rua, do cinema ou da praia. E o beijo que ficou no quase, no sem gosto, sem vontade e sem repetido. O trabalho que estressou, tirou do sério e deixou um trapo. O trabalho que realizou, deixou orgulhoso ou trouxe o dinheiro extra bem vindo. Cada carta, e-mail ou mensagem que escreveu, editou, corrigiu e não mandou. Cada olá bobo no meio da tarde que fez alguém feliz. Cada carta, e-mail ou mensagem que recebeu e sorriu. O olá bobo que preferiu não retribuir porque ainda não tinha espaço para ninguém. Cada coração que você fez feliz, cada coração que te fez feliz, cada coração que se machucou por sua causa, cada coração que machucou o seu. Cada pra sempre que acabou. Cada talvez que ficou demorado. Cada não que virou sim. Cada sim que virou nada. Cada acerto que virou dúvida. Cada dúvida que virou fumaça. Cada pulo que virou salto. Cada passo que virou estrada. Cada amor que virou história. Cada amigo que virou amor. Cada música que virou nossa. Cada nosso que virou de ninguém. Somos os pedacinhos de memória costurados ao longo do tempo, das esperas, dos titubeios e das dúvidas. Somos os pedacinhos de presente que costuramos com gentileza, carinho, dedicação e esforço. Dizem que a boa costura se conhece pelo avesso, então vamos cuidar de fazer o nosso melhor possível, todos os dias. Porque melhor do que parecer ou pretender ser perfeito, é ter a consciência de que cada ponto foi costurado do jeito mais honesto e bem-intencionado possível. É o mínimo de nós que podemos oferecer ao mundo.





Amor e verdade sempre!
Telma

terça-feira, 15 de setembro de 2015

idades

 


Outro dia, reli trechos de um livro do qual gostei muito, chamado "Aos 7 e aos 40", do João Anzanello Carrascoza. É uma obra "simples", no melhor sentido da palavra, de linguagem coloquial, leitura rápida. São memórias do autor nas idades do título, esmiuçadas e colocadas em paralelo.
À primeira vista pode parecer apenas um livro melancólico ou saudoso sobre as distintas fases da vida, mas é mais do que isso. A forma da narrativa, tão rica em detalhes e sutilezas, nos leva a refletir sobre a importância dos pequenos atos na formação do que vamos nos tornando ao longo da vida. Os grandes acontecimentos nos impactam e podem ficar até mais "vivos" ou "importantes" nas nossas lembranças, porém os atos e fatos cotidianos são responsáveis por boa parte da base que vai nos sustentar pela vida afora. As lembranças que o autor têm de falas ou gestos do pai, dele mesmo, do irmão mostram que ora eles se refletem, ora ajudam a entender o comportamento atual.
Não é um livro pretensioso, no sentido em que não se propõe a ser um  tratado sobre a infância e a maturidade, nem mesmo fazer julgamentos de bom versus mau, ou melhor idade versus pior idade. Se lido com olhos atentos, nos leva a pensar de um jeito bem particular na nossa própria trajetória. E se lido também com o coração aberto, nos proporciona uma viagem muito saborosa às nossas próprias memórias e emoções.

Recomendadíssimo!

Amor e verdade sempre!
Telma

heróis



Desejo ouvidos amplificados que me façam sempre capaz de escutar o outro. Olhos com visão além do alcance para enxergar o que me dizem sem falar. Boca com dosador mágico de doçura e acidez para que eu saiba aconselhar. Mãos com força extra para que eu consiga ajudar. Pés firmes e flutuantes que me ajudem a atravessar o caminho aqui no chão e lá nas nuvens. Fé consciente para ajudar a contornar os obstáculos que não conseguir retirar. Amor no coração para compreender as diferenças. Saúde de ferro para realizar todos os sonhos. Um pincel extra-macio para colorir a vida quando ela resolver acinzentar. Coragem ultra-poderosa para ser apenas quem eu sou. E para mudar quantas vezes forem necessárias.

Amor e verdade sempre!
Telma

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

her

her 

Outro dia, finalmente assisti (com um delay enorme, eu sei) ao filme Her. Confesso que a sinopse em si não me entusiasmava, mas eram tantas pessoas e críticas falando bem que resolvi dar um chance num sábado frio à noite e...que filme!
Talvez muito por causa da interpretação do (gato) Joaquín Phoenix, mas também do roteiro muito bem amarrado, terminei de assistir com um misto de muitas sensações malucas passando na minha cabeça. Achei o filme profundamente triste e melancólico em muitos momentos. O personagem se apaixonou por "alguém" que, conhecendo todas as suas características,  satisfazia todas as suas vontades! Ela falava o que ele queria ouvir, no momento em que ele precisava. Eu ligo (no caso, a máquina, não o telefone), ela me satisfaz, e tá tudo certo.
E se a gente parar para pensar nas redes sociais, nos aplicativos tipo Tinder, etc...não é mais menos isso o que acontece? Nós criamos personagens feitos para serem aplaudidos. A melhor foto, o melhor ângulo, as palavras mais bem escolhidas. O que antes era "privilégio" de pessoas próximas e realmente queridas, passa a ser um meio de alimentar a autoestima (de um jeito torto e fraco, mas, ainda assim, alimentar). O que é mostrado de um jeito mais "extremo" no filme...somos muitos de nós, metidos em relacionamentos que deixam de lado a dimensão humana (sejam eles reais ou virtuais)! Outro dia, li que tem muita gente terminando relacionamentos de anos por whatsapp! Então o que a gente vê no filme não é tão irreal assim. Ali, o "outro" é literalmente uma máquina, mas será que na vida "real" não estamos enxergando os outros assim também? Como uma máquina de satisfazer nossos desejos? Pensando mais profundamente, será que não podemos acabar perdendo a noção de empatia em relação aos outros? Porque é muito "fácil" ver a foto do menininho sírio na praia, dos refugiados nos barcos ou das crianças na África e se compadecer. Fechamos nosso computador, smartphone e vida que segue. O quanto aquelas imagens realmente alteram a nossa vida de alguma forma? O quanto nos paralisam de fato? O quanto elas nos fazem mudar padrões de comportamento? Em quanto tempo esquecemos e tudo aquilo vira apenas mais um post? É fácil ser "sensível" e "humano" da tela para fora, mas o quanto evitamos machucar o outro e valorizamos as pequenezas do dia a dia, e não apenas nas fotos sorridentes do Facebook ou perante os amigos? Óbvio que não dá para generalizar quando se fala de comportamento humano, mas são questões que podemos e devemos analisar muito profundamente, olhando no espelho frio e sem ninguém para aplaudir. 
Fiquei realmente tocada com o filme e com o tanto de dimensões que ele atinge, vale assistir mais vezes e captar mais nuances, mais sentimentos, mais perspectivas. Dessa primeira assistida, ficou o pensamento: estamos tristemente buscando apenas quem nos satisfaça física e materialmente ? Eu continuo acreditando piamente no amor lindo e da vida inteira...o que não me exime de refletir muito a respeito dessa obra-prima contemporânea.

Amor e verdade sempre!
Telma

domingo, 13 de setembro de 2015

adaptação


amanda cass 


O dia cinza não encorajava o passeio, a saída, a caminhada despretensiosa. Mas ela precisava espairecer as ideias antes de terminar o dia de trabalho cansativo e burocrático. Precisava respirar além das paredes do quarto-home-office, sentir cheiro de café, de rua, de poluição, ouvir passarinhos, ônibus, caminhão. Saiu sem rumo pelo bairro, respirou fundo algumas vezes, reparou nas pessoas que passavam apressadas e entretidas com suas telinhas iluminadas. Todas entretidas, vendo a vida por imagens, luzes e sons, rindo ensimesmadas. Quem sabe estivessem recebendo uma piada boa, uma notícia boa, um novo amor instantâneo. Quem sabe estivessem vendo seus e-mails de trabalho, dispensando o cara chato ou só passando o tempo.
Ela saiu olhando para os lados, para o alto, para tudo e para todos. Tinha mania de puxar conversa com qualquer um na rua, mas isso era cada vez mais raro. Corria o risco de a fulminarem por terem se distraído com seu oi despretensioso. Ficou andando em silêncio, mirou milhares de coisas, mas o pensamento não estava ali.
Passou em frente ao restaurante que costumavam frequentar, viu o garçom de rosto familiar, acenou de longe, ele perguntou por que não ia mais lá, disse que estavam com novidades. Ela falou que iria aparecer qualquer dia, mas sabia que voltaria somente com ele. Seu pensamento foi longe, atravessou a janela do apartamento, fechou as cortinas. Estava em casa assistindo ao filme meio sem graça, tomando café para espantar o frio, a solidão e as chamadas insistentes de gente que não a interessava e nem a fazia sorrir. De repente, um toque diferente, que ela nem se lembrava mais.

- Oi, tudo bem?
- Tudo e você? Quanto tempo...
- Pois é, muito trabalho ultimamente, alguns projetos novos...
- Imagino...eu também ando trabalhando bastante, mas os meus são os mesmos projetos de sempre - disse, sorrindo meio sem-graça.
- O que tem feito?
Ela teve vontade de responder "além de pensar em você?", mas achou melhor manter a cabeça no lugar:
- Trabalho, trabalho e trabalho. Não posso nem me dar ao luxo de falar “do trabalho pra casa”, já que continuo trabalhando em casa né?
Ele sorriu. Desde sempre, achava graça nas piadas sem-graça dela.
- E você? Quais são os projetos novos? Mudou de emprego? De carreira?
- Vamos sair pra colocar a conversa em dia? Aí eu te conto. O que você acha?
- Vamos, claro! A gente marca, então...
- Não, vamos amanhã. Você pode?
- Posso...Onde?
- Naquele restaurante de sempre?
Ouvi-lo falar de um jeito tão familiar e próximo fez bem, ela pensou em fazer charme, dizer que não podia. Mas aquilo não cabia entre eles, nunca coube. Aliás, nem sabia por que tinham passado tanto tempo sem se falar, já que se queriam tão bem.
- Tudo bem, combinado. Às nove?
- Combinado.

Inacreditavelmente, ela não estava ansiosa. Ela, a mais ansiosa de todos os ansiosos do planeta Terra, estava calma.  Ele chegou, se abraçaram longamente, deram um beijo no rosto meio sem-jeito e foram andando até o restaurante. Começaram a falar de trabalho, da vida, das famílias, dos cachorros dele, filosofaram sobre o mundo como costumavam fazer. O garçom os reconheceu, veio recebê-los animado. Sem pensar, pediram o mesmo de sempre. O mesmo prato, a mesma bebida. A conversa se estendeu noite afora. Era bom. Sempre era bom. Os dois sabiam o que iria acontecer. Não se prometeram nada, não fizeram juras de amor, não disfarçaram nem dissimularam nada. Isso não cabia entre eles.

- Com licença, você está atrapalhando o caminho!

A moça com carrinho de criança e pouca paciência trouxe seu pensamento de volta à porta do restaurante no meio da tarde fria.  Ainda passou na padaria para comprar um cappuccino antes de voltar para casa, com um misto de sensação boa e da saudade doída que a acompanhava. Viu o celular piscando, pensou nas mensagens indesejadas, nos aplicativos superficiais que a irritavam e não a preenchiam há muito. Entre tantos, o nome dele no visor. Tremeu, sentiu o coração acelerar, hesitou alguns minutos.

Tô indo viajar depois de amanhã...
Saudade...
Beijo
;-)

Pensou um pouco, sabia exatamente o que queria dizer. Mas os dedos foram mais rápidos do que o pensamento.

Boa viagem!
Também!
Beijo
;-)

Viu como estava sendo boba e superficial. O pensamento em frente ao restaurante... a quem ela queria enganar, afinal?

Emendou:

Quanto tempo vai ficar?

É uma viagem curta, trabalho. Uns 15 dias, talvez um pouco mais. Vamos tomar um café?

Na volta?

Não, agora, sua boba....rs

Ela sorriu em silêncio.

Ele insistiu mais uma vez. 

Vamos?

A chuva chegou forte. 

Ela fechou as cortinas. 

Ele fechou a mala. 

Às 9h?

Combinado.

Passo na sua casa então.

Ok. Beijo.

Beijo :)

:)

Felizmente, a vida não os havia feito esquecer o que cabia entre eles.



Trilha: Coat for a Pillow - Josh Rosue



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

Arte: Amanda Cass

PS: nessa nova fase do blog, resolvi revistar alguns textos antigos e "brincar" de escrever novos finais, começos, enfim, exercitar possibilidades =)