quinta-feira, 26 de novembro de 2015

desce?

 


O visor do telefone se acendeu na tarde fria e vazia. Não reconheceu de pronto o número, estava ocupada, não atendeu. Sabia apenas que não era o telefone de quem queria, não era o sorriso que lhe fazia bem nem a companhia que lhe trazia sentido e sossego, risadas e pensamentos, sonhos e devaneios. No meio da tarde fria e vazia, de dúvidas e planos e projetos em andamento, sabia bem quem lhe fazia falta. Aquela luz acendeu sua vontade. Não era aquele número que ela queria, era outro o que fazia seu coração bater descompassado, desajeitado e tímido. No meio da tarde fria e vazia, pensou em fugir pra debaixo do abraço gostoso e farto e quente que ela gostava tanto, com a cara de felicidade simples e honesta que fazia tão bem e era tão leve e bom, apenas isso. Pegou o telefone, discou o número sem pensar, falou sem respirar.

- Oi. Liguei para ouvir a sua voz. Estava precisando.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, nada. Quer dizer... aconteceu.
Por um segundo pensou em se arrepender.
- O quê? Estou ficando preocupado! Tá tudo bem?
- Aconteceu. Acontece. É sempre assim. Sempre que eu te vejo, quero te ver mais. Ontem...
- Ufa! Que susto...oi? Ontem...o que você falou?
- É. Isso mesmo que você ouviu...
- Me pegou de surpresa... - sorriu tímido e meio desconcertado.

Ela percebeu, se arrependeu, pensou em desdizer, falar que estava brincando. O silêncio se prolongou, as respirações conversavam sem parar. Passaram minutos se ouvindo em silêncio.

- Quando te vejo, nunca é o suficiente. Independente do tempo que a gente passa juntos, entendeu?
- Mas você nunca me falou nada...
- Não...e nem deveria ter falado. Somos amigos, eu te adoro, sempre tive medo de te perder se falasse, de deixar de te ter por perto. Esquece. O que eu estou fazendo?
- Mas nós nunca vamos nos afastar, você sabe disso!
- Eu sei. Não, quer dizer, não sei se eu sei.
- Você sabe como é importante para mim...não sabe?
- Preciso desligar...desculpe...
- Não, espera!
- Não, não sei onde estava com a cabeça. É que de repente me deu uma certeza e uma coragem e...
- Calma...
- Mas é uma certeza minha, não tinha nada que sair por aí falando nada. Sério, esquece. Continua tudo igual. Finge que, sei lá, que eu estava bêbada ontem à noite e acordei de ressaca hoje...esquece essa ligação, tá bom?
Ele riu do jeito sem jeito dela, a imaginou vermelha do outro lado do telefone, apertando os olhos e sentiu ainda mais carinho e vontade de vê-la.
- Não vou esquecer, você sabe disso
- Sério, deixa pra lá...
- É raro quando essas certezas se encontram, sabia não?. Você é especial demais para mim, eu só não sabia como te dizer isso. Já, já, tô na porta da sua casa. Desce?


Amor e verdade sempre!
Telma

terça-feira, 24 de novembro de 2015

olhos

 

Às vezes, nem sabia direito se eram observações importantes sobre a vida ou mero cotidiano. Só prestava atenção nos olhos escuros, densos e um pouco tristes, cheios de vida e perguntas, cheios de dúvidas e certezas tão claras. Mal sabiam eles o bem que faziam a ela. Como seus pensamentos eram, de alguma maneira, tão parecidos. Ela poderia completar as frases dele. Ele poderia contar as piadas dela. Eles poderiam rir juntos para o resto da vida. Mas havia a impossibilidade, o senão, o porém, o nunca. Havia as diferenças intransponíveis, abissais. Havia tudo que tornava aquilo ridiculamente impossível e improvável. Havia tudo o que faria daquilo apenas uma lembrança logo ali adiante. Havia tudo o que se tornaria nunca mais em pouco tempo. Havia tudo o que seria nada ou talvez mais em breve. Mas havia tudo. E isso, de algum jeito, bastava.


Amor e verdade sempre!
Telma