segunda-feira, 28 de março de 2016

olhos

 


Às vezes ela nem sabia direito se eram observações importantes sobre a vida ou mero cotidiano. Só prestava atenção nos olhos escuros, densos e um pouco tristes, cheios de vida e perguntas, cheios de dúvidas e certezas tão claras. Mal sabiam eles o bem que faziam a ela. Como seus pensamentos eram, de alguma maneira, tão parecidos. Ele poderia completar as frases dela. Ela poderia contar as piadas dele. Ela poderia rir junto com ele para o resto da vida. Mas havia a impossibilidade, o senão, o porém, o nunca. Havia as diferenças intransponíveis, abissais. Havia tudo que tornava aquilo ridiculamente impossível e improvável. Havia tudo o que faria daquilo apenas uma lembrança logo ali adiante. Havia tudo o que se tornaria nunca mais em pouco tempo. Havia tudo o que seria nada mais em breve. Mas havia tudo. E isso bastava.


Amor e verdade sempre!
Telma

terça-feira, 22 de março de 2016

quês

 


Todo recomeço tem um quê de renascimento, um quê de renovação, um quê de merecimento. Todo início tem um quê de superação, um quê de determinação, um quê de esperança. Todo caminho tem um quê de vontade, um quê de coragem e um tanto de paixão . Todo desmerecimento tem um quê de inveja incomodando. Todo amor tem um quê de admiração transbordando. Todo respeito tem um quê de carinho abraçando. Renascer, recomeçar, caminhar, amar, amar, amar. Tem um quê de vida batendo no peito. Tem um quê de amor flutuando no ar. Tem um quê de satisfação sorrindo coração. Tem amor aqui. Tem amor ali. Tem amor em todo lugar que nossos olhos miram com atenção.


Amor e verdade sempre!
Telma

sentir

- O que você faz para escrever?
- Como assim?
- Tem alguma rotina? Ou a inspiração aparece de repente?
- A inspiração não existe, não é nada mágico ou sobrenatural como falam.
- Como pode falar isso? Se não existisse, todos escreveriam igualmente bem.
- O que acontece é que nem todos sentem o suficiente para escrever.
- Que bobagem! Todos nós sentimos...
- Sentir na superfície não basta, tem que cortar a própria carne. É isso ou nada.


Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

segunda-feira, 21 de março de 2016

não foi

 



Estavam na cozinha conversando depois do jantar, comentando as notícias e os dias de trabalho.

 -Você viu? Descobriram água em Marte!

- Vi, sim!

- Incrível, não?

- É, muito.

Ele não sabia, mas o pensamento dela não estava em Marte, nem na lua, nem nas estrelas ou nos astros, estava longe. Havia reencontrado um amigo de tempos atrás por acaso na hora do almoço e não conseguiu tirá-lo da cabeça o dia todo. Não era o ex-namorado, ex-caso, era apenas um amigo que o tempo havia distanciado. Mas mexeu com ela o suficiente para deixar a falastrona quase monossilábica e com o pensamento avoado.

Ele seguiu no assunto, realmente empolgado com a descoberta e com as possibilidades. Mesmo que elas não fossem se realizar até 2050, pelo menos.

- Vai ver agora a expedição para lá sai....já pensou? Ir para Marte?

- Nós não fomos nem até o Ceará ainda, André.

Ele riu do comentário prosaico diante da grandiosidade de uma possível viagem à Marte.

- Verdade. Mas Marte é tão mais...tão mais....

- Longe? Quente? Salgado?

A paciência dela também não estava ali, pelo jeito. 

Ele tentou quebrar o clima:

- Mais quente que o Ceará...acho que não, hein. 

E riu de si mesmo do jeito abobalhado que já a irritava havia tempos.

Ela viu acender o celular que estava na estante. O coração acelerou, ela tentou se manter discreta, podia ser qualquer pessoa, afinal. Mas ela sabia que não era, o abraço do final do encontro tinha deixado muito claro o quanto havia sido forte para ambos e nenhum dos dois tinha entendido bem o porquê. As notificações chegavam em sequência. Levantou num pulo. Ele estava olhando fixamente para o tablet e se assustou.

- Nossa, que foi?

- Nada, vou ver se o celular carregou.

Tudo estava ali. 

Pensei em você o dia todo. 

Você também? 

Ou estou louco? 

O que aconteceu?

Fiquei perdido.

Se foi impressão minha, ignore isso tudo. 

Por favor. 

Somos amigos, eu sei. 

Mas precisava falar ou ia explodir, você me conhece.

Desculpe.

Ela foi para a sala sem saber o que fazer, meio atordoada, meio implodindo. André ria na cozinha de algum vídeo da internet, sem notar nada de estranho. Ele não era dado a essas atenções. Era desligado, do tipo que achava que tudo estava sempre bem, mesmo quando sabia que não estava. Jogava tudo pra debaixo do tapete, mágoas acumuladas, conversas não faladas, pedidos não entendidos, dicas não percebidas. Ria cada vez mais alto e abobalhado. Ela se irritava e respirava fundo.

Não, não foi. 

Mesmo?

Saiu sem olhar para trás, André estranhou, foi atrás dela no hall do elevador. 

- Aconteceu alguma coisa? Alguma emergência? Alguma...

- Aconteceu. Fui chamada pra uma expedição. Não me espere.

A porta do elevador fechou, ele pensou por dois segundos, parado em pé na porta. Voltou para a cozinha. Não era nada. Tudo estava bem. Sempre estava, afinal.

Vanessa viajava pra não voltar mais. André ria de outro vídeo na internet.


Amor e verdade sempre!
Telma

consciência!



Adotar a  "postura da consciência" não significa nem de longe refrear todos os impulsos ou paixões, mas sim prestar atenção, com esforço e boa vontade, às próprias atitudes. Não só em relação a nós mesmos, mas também em relação aos outros. Não é deixar de ser quem somos para agradar ou para tentarmos parecer que somos outro, mas conseguir se olhar com honestidade e perceber o que trazemos de bem e bom também para quem está próximo.
Já ouvi inúmeras vezes que "se a palavra 'desculpas' não existisse, as pessoas seriam melhores umas com as outras no dia a dia", e minha avó sempre dizia que "se tiver que me tratar bem e me dar flores, que faça enquanto eu estiver viva, porque depois não precisa mais". E não é que elas juntas vão dar na tão emblemática "é preciso amar as pessoas como se não houvesse amanhã"? E que ela, apesar de parecer romântica ou passional, tem tudo a ver com a "postura da consciência"? "
"Amar as pessoas como se não houvesse amanhã" nada mais é do que estar realmente presente no momento presente, valorizando-o e agradecendo-o enquanto acontece, reconhecendo o milagre de cada minuto, de cada segundo, de cada respiração e do que damos e recebemos a todo instante. Estar consciente do que falamos, do como fazemos, ouvir o que os outros têm a nos dizer, não amanhã, não mais tarde, mas no momento em que somos solicitados. Às vezes somos chamados à consciência por alguém que está próximo e cabe a nós trilhar esse caminho ou não. Afinal, é estar disponível e aberto também. É viver amando, agradecendo, sentindo, recebendo, retribuindo, ouvindo e aceitando todas as dádivas e dores que a vida traz, assim mesmo, no gerúndio, no momento em que elas estão acontecendo. É parar para perceber o quanto estamos sendo agraciados em vários momentos. É também ter consciência do que nos faz mal e o que podemos fazer a respeito disso, mesmo que seja esperar a dor passar quando não há outro remédio. Talvez por isso eu não goste de drogas e de nada que me tire a consciência e a plenitude. Porque, para mim, tudo, absolutamente tudo, tem significado e uma força maior quando estamos conscientes e atentos.  A vida é plena e exuberante, em toda força e vigor do agora. Um viva à consciência! Viva, consciência, viva!


Amor e verdade sempre!
Telma

Arte: Amanda Cass


quinta-feira, 17 de março de 2016

vem!


Tempos conturbados, caóticos, imprevisíveis. Ódios acirrados, disputas com muito ego e pouco nexo. A necessidade de estar certo, não importa muito a respeito de quê. Nesses momentos de turbilhão e barulho e agitação e agressividade, é no seu olhar que eu encontro alguma paz, algum alento, um pouco de mim mesma. No encontro sem pretensão, na conversa jogada fora ao pé do ouvido, nas falas que saem direto de um para o outro, nos minutos de alívio em dias duros e cinzentos. Nesse mundo em que a raiva se tornou moeda de troca e amizades de anos se desfazem em minutos por divergência de ideias (!), sentamos no nosso refúgio secreto e falamos sobre o futuro, o presente e os sonhos. Imaginamos rumos melhores e saídas incríveis que resolvam o mundo e nossas vidas, assim, de um golpe de sorte, destino ou desafio. Vem, encosta sua cabeça aqui, vamos pensar e fazer um mundo melhor e mais saudável para nós, para os nossos e para todos. Vamos recriar tudo que for possível. Vamos voltar a acreditar que o bem é mais forte e poderoso. Que a verdade e a dignidade são maiores e mais fortes do que os interesses mesquinhos. Deixemos o ódio esquecido em uma timeline empalidecida qualquer. Vem! Vem... que o amor é maior que tudo isso. E é com essa luz que nós vamos mudar o mundo!


Amor e verdade sempre!
Telma

segunda-feira, 14 de março de 2016

desce?

 


O visor do telefone se acendeu na tarde fria e vazia. Não reconheceu de pronto o número, estava ocupada, não atendeu. Sabia apenas que não era o telefone de quem queria, não era o sorriso que lhe fazia bem nem a companhia que lhe trazia sentido e sossego, risadas e pensamentos, sonhos e devaneios. No meio da tarde fria e vazia, de dúvidas e planos e projetos em andamento, sabia bem quem lhe fazia falta. Aquela luz acendeu sua vontade. Não era aquele número que ela queria, era outro o que fazia seu coração bater descompassado, desajeitado e tímido. No meio da tarde fria e vazia, pensou em fugir pra debaixo do abraço gostoso e farto e quente que ela gostava tanto, com a cara de felicidade simples e honesta que fazia tão bem e era tão leve e bom, apenas isso. Pegou o telefone, discou o número sem pensar, falou sem respirar.

- Oi. Liguei para ouvir a sua voz. Estava precisando.
- Aconteceu alguma coisa?
- Não, nada. Quer dizer... aconteceu.
Por um segundo pensou em se arrepender.
- O quê? Estou ficando preocupado! Tá tudo bem?
- Aconteceu. Acontece. É sempre assim. Sempre que eu te vejo, quero te ver mais. Ontem...
- Ufa! Que susto...oi? Ontem...o que você falou?
- É. Isso mesmo que você ouviu...
- Me pegou de surpresa... - sorriu tímido e meio desconcertado.

Ela percebeu, se arrependeu, pensou em desdizer, falar que estava brincando. O silêncio se prolongou, as respirações conversavam sem parar. Passaram minutos se ouvindo em silêncio.

- Quando te vejo, nunca é o suficiente. Independente do tempo que a gente passa juntos, entendeu?
- Mas você nunca me falou nada...
- Não...e nem deveria ter falado. Somos amigos, eu te adoro, sempre tive medo de te perder se falasse, de deixar de te ter por perto. Esquece. O que eu estou fazendo?
- Mas nós nunca vamos nos afastar, você sabe disso!
- Eu sei. Não, quer dizer, não sei se eu sei.
- Você sabe como é importante para mim...não sabe?
- Preciso desligar...desculpe...
- Não, espera!
- Não, não sei onde estava com a cabeça. É que de repente me deu uma certeza e uma coragem e...
- Calma...
- Mas é uma certeza minha, não tinha nada que sair por aí falando nada. Sério, esquece. Continua tudo igual. Finge que, sei lá, que eu estava bêbada ontem à noite e acordei de ressaca hoje...esquece essa ligação, tá bom?
Ele riu do jeito sem jeito dela, a imaginou vermelha do outro lado do telefone, apertando os olhos e sentiu ainda mais carinho e vontade de vê-la.
- Não vou esquecer, você sabe disso
- Sério, deixa pra lá...
- É raro quando essas certezas se encontram, sabia não?. Você é especial demais para mim, eu só não sabia como te dizer isso. Já, já, tô na porta da sua casa. Desce?



Amor e verdade sempre!
Telma

domingo, 6 de março de 2016

apontadores


Quando eu era criança, não entendia muito bem por que falavam pra não deixar o lápis cair no chão, senão ele quebrava.
Sempre que eu o pegava, tratava logo de olhar a ponta e ficava feliz quando ela estava intacta...e, se não estivesse, apontava com carinho para que ele voltasse ao "normal". E notava que algumas vezes a ponta se refazia logo, mas em outras o lápis ia ficando pequenino até que a ponta finalmente aparecesse de novo.
Demorou até descobrir que na verdade eles se quebravam por dentro...e eu comecei a tomar mais cuidado com eles.
E não é que a gente é um pouco assim também? Quando se machuca na superfície, custa um pouco de trabalho, mas logo a gente se refaz e volta a escrever nossas histórias com alegria e entusiasmo.
Mas quando o machucado pega lá dentro, naqueles lugares que nem a gente mesmo enxerga direito, custa um pouco mais. A gente tem de se refazer com mais trabalho, delicadeza e cuidado, pra ser capaz de voltar a escrever nossas histórias. O bom é que sempre é possível. Com paciência e persistência, sempre voltamos a escrever lindas histórias de alegria, prazer e realização. Talvez essa seja a verdade mais singela: nossa persistência é o mais afiado apontador da vida e do amor.


Amor e verdade sempre!
Telma

sábado, 5 de março de 2016

claquete


Quando a felicidade vem chegando com seus passos leves e firmes e silenciosos e precisos. Quando o olhar no futuro não impede as belezuras aqui do lado de brilharem ainda mais e mais. Quando o pedacinho de sonho está  pronto e os planos começam a ser postos em marcha. Na marcha amorosa de quem tem paz no coração e no espírito porque não precisa pisar na cabeça de ninguém para chegar onde quer . A alma aliviada, o resultado do empenho  e do coração pulsante. O espaço  que foi pensado com carinho e cuidado em cada detalhe para que todos se sintam acolhidos e produtivos ali. Vai ter trabalho, vai ter diversão, vai ter sonho realizado. Já tem sonho realizado. Quem diria, Telma, quem diria. Logo você! Justo você!

Silêncio no set!

Som ok?

Claquete!

Gravando!

Amor e verdade sempre!
Telma