segunda-feira, 5 de junho de 2017

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Resolveu revisitar os últimos meses, em um passeio antecipadamente nostálgico pelas futuras memórias do ciclo prestes a terminar. Lembrou da chegada, de como prestou atenção em cada olhar curioso e um pouco assustado e estranhou o fato de  não haver alguém explicitamente feliz naquela sala. Ninguém exalando alegria pelos poros ou felicidade pelos olhos. Nem ela, que vinha de três anos absurdamente difíceis e dolorosos, e só agora respirava com certa tranquilidade e alívio. Pensou naquele lugar como um descanso para os pensamentos, que se ocupariam de lugares menos sensatos, menos responsáveis ou menos obrigatórios . Talvez ali encontrasse de volta o caminho, o rumo, o sossego, a paz. Talvez encontrasse algum consolo ou sonhos iguais aos seus. Tentou se desfazer das expectativas. Talvez não encontrasse nada, afinal. Um sorriso tímido ali, um olhar perdido acolá, uma conversa desencontrada durante o café. Muito do que já tinha aprendido, muito do que nunca tinha ouvido falar. Um mundo novo de possibilidades ou uma pausa para si, só o tempo a mostraria o que estava fazendo naquele lugar, naquele momento, com aquelas pessoas.
Lembrou de quem a tocou de alguma maneira logo no início. A mulher que estava ali para realizar seu sonho guardado na gaveta há tempos, a garota que já havia feito um viral de sucesso na internet, o moço de olhos profundos e tristes que falou sobre sua experiência como empreendedor, o carioca com cara de poucos amigos e olhar um tanto intimidador, o psicólogo que sentou ao seu lado e trocou não mais do que três palavras durante o dia todo. Como tem o péssimo hábito de ir ou não com a cara das pessoas, fez alguns julgamentos precipitados. Como tem o ótimo hábito de dar segundas chances, descobriu preciosidades escondidas no fundo daquele mar de desconhecidos buscando algum mapa da mina. Como tem o tímido hábito de não falar muito dos seus sentimentos, sabe que vai deixar muitas dessas pessoas lhe escaparem pelos dedos, por puro medo de chegar mais perto e deixar claro o quanto quer que elas fiquem na sua vida. 
Ao longo do tempo, ouviu fragmentos de histórias, conheceu equilíbrios e desequilíbrios, se sensibilizou com o esforço que alguns faziam para estar ali todos os sábados. Encontrou dores mais profundas do que a sua, caminhos mais tortuosos e doloridos do que o seu, teve vontade de saber mais. Conviveu com gente que lhe agregou pouco, abriu o coração para quem soube chegar mais perto, mal trocou palavras com pessoas que poderiam ter tanto a lhe mostrar também. 
Deixou para trás a "mulher que estava ali para realizar seu sonho guardado na gaveta uma guerreira" e conheceu Rosana, uma obstinada sensível e preocupada com os outros, até mais do que com ela mesma. Esqueceu a "garota que já tinha feito um viral" e conheceu a Paula, uma menina madura em busca de auto-conhecimento e paz interior, cheia de ideias e vontade de fazer acontecer.  Ronaldo deixou de ser apenas o "moço de olhos profundos e tristes" e se mostrou dono de um coração generoso e machucado que corajosamente busca os sonhos que o façam sentir a vida correndo nas veias e tragam de volta o sorriso. Descobriu que o "carioca com cara de poucos amigos", na verdade era Guilherme, sujeito sensível que procura nos retratos da vida a realização e na realização dos desejos mais profundos, o que lhe traga mais sentido. Não trocou mais do que meia dúzia de palavras com o psicólogo que nunca mais sentou ao seu lado.
Nesse tempo, domou muitas de suas inseguranças, descobriu outras mais, iniciou outro caminho profissional. Se entristece quando pensa que os sábados vão perder um pouco da cor e da graça, das risadas e da cerveja, do compromisso descompromissado e prazeroso. Que muitos daqueles rostos serão memórias logo mais. Que outros serão saudade. Torce para que alguns façam parte da sua vida, mesmo sabendo que nem sempre é assim. É que ela tem essa mania de se incomodar quando pensa em nunca mais. Agradece em pensamento a cada um deles e pede aos céus que eles se encontrem logo ali na próxima esquina. E deseja do fundo do coração que então todos estejam, enfim, explicitamente felizes. Simples e explicitamente felizes.



Amor e verdade sempre!
Telma De Luca

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